Esclarecimento: a filosofia tornou-se recentemente obrigatória no Ensino Médio do país. Para se adequar a essa nova realidade estão sendo lançados no mercado diversos materiais para essa demanda nova. Abaixo comento dois problemas graves no livro Filosofia para o Ensino Médio de Maria Luiza Silveira Teles, publicado pela Editora Vozes em 2010. Enquanto leitor e futuro professor de filosofia, sinto-me no dever de não deixar passar em branco o tipo de erro que aponto abaixo.
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1. Sobre o que é a filosofia:
Na página 33 há uma afirmação que, apesar de não ser uma falsidade evidente, requereria no mínimo uma defesa elaborada, visto não ser, de longe, a concepção mais usual a respeito do que seja a filosofia:
“A filosofia é uma ciência empírica porque se baseia principalmente na observação. Este, portanto, seria o método básico” (p. 33).
Essa afirmação, sem mais, é lamentável. Só pode confundir a cabeça de um aluno que está tendo os primeiros contatos com a filosofia. Uma maneira mais caridosa de ler essa passagem seria considerar que a palavra “não” foi ali esquecida duas vezes. Desse modo, leríamos que a filosofia não é uma ciência empírica e não se baseia na observação. A observação não é o método básico da filosofia. Essa correção seria condizente com o que a autora afirmou em parágrafos precedentes:
“… a discussão em Filosofia […] tem de ser um levantamento de hipóteses, com respostas lógicas. […] Nas ciências, de um modo geral, costuma-se usar o método científico, que começa com a observação rigorosa […]. Isso, porém, não é possível em Filosofia, já que lidamos somente com ideias, conceitos” (p. 33).
Essas afirmações são aceitáveis e, assim, só temos que lamentar que três ocorrências da palavra “não” tenham passado despercebidas na revisão do material antes da publicação – se é que foi isso que aconteceu. Tal como está, entretanto, esse material não atende os mínimos requisitos para apresentação ao público leigo ao qual é dirigido, pois não pode conduzir a outra coisa que não confusão e erros.
2. Lógica, proposições, validade:
Um outro conjunto de erros inadmissíveis é apresentado no capítulo 2. Seu título é “O pensamento lógico”. O capítulo inicia com uma definição de silogismo e apresenta dois exemplos:
“[Silogismo] é uma conclusão razoável e lógica que se baseia em duas proposições ou premissas verdadeiras. […]:
Pedro é homem
Todo homem é mortal
Logo, Pedro é mortal. […]Todos os negros são pessoas
Napoleão era uma pessoa
Logo, Napoleão era negro “ (p. 19)
Logo em seguida, são apresentados dois princípios da lógica clássica, o de não-contradição e o do terceiro excluído. Os erros aparecem logo na sequência, na avaliação dos argumentos apresentados como exemplos:
“Podemos representar proposições por meio de frases (como já fizemos no início do capítulo) ou símbolos. Uma cadeia que forma uma expressão válida (isto é, que ofereça um valor falso (F) ou verdadeiro (V) de retorno) é chamada de fórmula bem formulada.
Assim, o primeiro exemplo de silogismo que apresentamos é uma fórmula bem formulada. Já o segundo exemplo não é uma fórmula bem formulada, pois leva a uma conclusão falsa.
Esclarecendo, proposição é uma sentença declarativa, afirmativa, que pode assumir o valor de verdadeiro (V) ou falso (F)” (p. 20).
É difícil imaginar uma leitura caridosa para esse trecho. Em primeiro lugar, a caracterização oferecida entre parênteses é mais adequada ao que usualmente chamamos de proposição. Tal como está, entretanto, essa caracterização contradiz a avaliação dos exemplos, o primeiro como bem formulado e o segundo como não bem formulado. Mas, por outro lado, essa avaliação sugere que a autora não pretendia caracterizar a noção de proposição, mas, sim, a noção de validade.
Mas, se ela de fato pretendia caracterizar a noção de validade, temos ainda problemas. Para corrigi-los teríamos de, em primeiro lugar, excluir o que está entre parênteses (porque caracteriza proposição e não validade). Em seguida, é preciso aprimorar a caracterização de validade. Um argumento é válido se ele garante que, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão também será verdadeira (pode-se chamar isso de a conclusão seguir-se das premissas). Assim, a validade de um argumento independe do valor de verdade real das premissas e da conclusão, pois garante apenas que a conclusão é verdadeira em todas (e apenas) as situações em que as premissas são verdadeiras. Disso não se segue que as premissas ou a conclusão sejam, de fato, verdadeiras. Com esses ajustes, poderíamos agora classificar o primeiro exemplo como válido e o segundo como inválido. No primeiro caso a conclusão segue-se das premissas; no segundo não.
Diante de tamanha confusão, vê-se que esse definitivamente não é um bom material para os estudantes de filosofia do nosso país. É uma pena que os editores tenham permitido a publicação de um material nessas condições e poderíamos ironizar dizendo que talvez tenham (mais uma vez) “apenas” esquecido a palavra “não”: neste caso o “não” do título do capítulo, que poderia ser chamado “O pensamento não-lógico”.
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