Eu li essa ideia num livro que não tenho aqui disponível agora para fazer a devida referência. Mas se lembro-me bem é mais ou menos assim: a tese de que eventos mentais são epifenômenos, isto é, a tese de que os eventos mentais são causados por, mas não causam, eventos físicos é uma posição autorrefutante.
Posições autorrefutantes são aquelas que são cuja verdade criaria um próprio contraexemplo para elas próprias ou acarretaria sua negação de alguma outra maneira. Um exemplo de proposição autorrefutante seria a seguinte:
- (1) Esta não é uma frase com sentido em português.
(1) é falsa pelo simples fato de ser o que é e dizer o que diz. Assim, seria conveniente ver em que sentido a tese do epifenomenalismo dos eventos mentais seria uma tese autorrefutante. Uma versão forte da tese poderia ser a seguinte:
- (E) Todos os eventos mentais são causados por, mas não causam nenhum, evento físico.
Alguém que acreditasse em (E) e tentasse defendê-la estaria, por esse fato e pelo conteúdo de (E) já refutando (E). Se a pessoa acredita, enuncia e quer defender (E), então tem de estar defendendo (com todas os efeitos físicos, verbais e comportamentais acarretados) a tese por causa desses desejos, crenças etc. Se defende porque acredita que a tese é verdadeira, então não pode ser verdade que nenhum evento mental causa um evento físico.
Mas, ainda assim, seria coerente (não seria autorrefutante) defender uma versão mais fraca do epifenomenalismo:
- (E’) Alguns eventos mentais são causados por, mas não causam nenhum, evento físico.
Alguém poderia perfeitamente defender essa posição, ainda que teria de negar que os eventos mentais que motivam ou causam essa defesa sejam eventos do tipo que (E’) afirma existir.
A moral da história deste post é, assim, dupla. Primeiro, apresentei uma estratégia argumentativa de testar a verdade de qualquer posição ou tese: testar se ela é autorrefutante. Segundo, fiz uma distinção entre teses epifenomenalistas sobre eventos mentais: a versão mais forte (universal) mostrou-se uma posição autorrefutante; mas o mesmo não necessariamente se dá com a versão mais fraca.
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