Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

Na postagem anterior, falei do início de minha pesquisa pós-doutoral. Esta postagem apresenta as questões que animarão essa pesquisa.

Como seres humanos imersos em relações interpessoais, é parte de nosso modo de vida responsabilizarmos uns aos outros pelas ações que realizamos. Responsabilizar alguém por uma ação, no sentido em que emprego essa noção aqui, envolve fazer coisas do seguinte tipo:

  • Condenar, repudiar ou exigir a punição de uma pessoa em virtude de alguma ação ou omissão considerada moralmente inadequada. Por exemplo, repudiar o político que é encontrado com uma mala de dinheiro de origem não informada;
  • Elogiar ou recompensar alguém por uma ação louvável. Por exemplo, agradecer ou dar uma gratificação em dinheiro à pessoa que encontrou documentos perdidos na rua e esforçou-se para que voltassem aos donos.

As práticas de responsabilização fazem partes de nossas vidas em sociedade e operam segundo regras mais ou menos explícitas. Nas relações interpessoais (como aquelea que se dão entre familiares, vizinhos ou entre motoristas no trânsito), normalmente não há qualquer norma explícita sobre como se deve culpar ou elogiar. Mas isso não quer dizer que não haja expectativas implícitas em operação. Pode ser aceitável, por exemplo, chamar a atenção de um vizinho do condomínio para o fato de que deixou o lixo em local inapropriado—mas seria provavelmente exagerado gritar com ele em sinal de reprovação. Em outros contextos, como a punição implementada no âmbito legal ou mesmo por guardas de trânsito, há regras explícitas que se espera que sejam seguidas—nos casos em questão, a legislação penal e o código de trânsito.

A pesquisa que estou realizando atualmente está interessada em questões do seguinte tipo a respeito das práticas de responsabilização: É possível tornar as práticas de responsabilização melhores de algum modo? Se sim, de que maneira isso pode ser realizado? O que precisaríamos saber (e como poderíamos sabê-lo) para promover o aprimoramento das práticas de responsabilização?

Comecei a abordar as questões acima em minha tese de doutorado, intitulada Aprimorar a responsabilidade: Direções para uma investigação interdisciplinar. Nela, argumentei que a investigação tradicional sobre a existência do livre-arbítrio e da responsabilidade moral—a investigação que busca dizer se o livre-arbítrio existe e se é apropriado responsabilizar os seres humanos por suas ações—é insuficiente para responder questões que dizem respeito ao aprimoramento das práticas de resposabilização (ver, em particular, as seções de Introdução e Discussão da tese). Também defendi que qualquer sugestão sobre como aprimorar as práticas de responsabilização exige que tenhamos tanto uma descrição adequada do funcionamento dessas práticas como padrões valorativos com base nos quais seu funcionamento possa ser avaliado. E esbocei, em particular, considerações sobre como certas disciplinas científicas podem contribuir com a tarefa descritiva (ver, em particular, o quinto artigo da tese, também mencionado em uma postagem anterior).

Espero ter mais coisas a dizer sobre o tema nos meses que virão. Até lá, fique à vontade para consultar o material indicado acima, enviar comentários ou seguir o blog.

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