[Este é um capítulo do livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia, disponível na Pontes Editores, na Amazon, por contato via Instragram, entre outras opções.]

Um elemento intrigante no pensamento de Sócrates é sua afirmação de que tanto ele quanto seus interlocutores são ignorantes sobre os assuntos de suas discussões. Em geral, uma pessoa precisa conhecer um assunto para poder julgar o que os outros dizem a seu respeito. Se não domino o Teorema de Pitágoras, por exemplo, como saberei que outra pessoa o aplicou mal na solução de um problema? Do mesmo modo, se Sócrates não tem conhecimento sobre as coisas “boas” que investiga, como pode concluir que seus pares de conversa também não têm?
Uma analogia com o cubo mágico pode ajudar a desfazer esse enigma. Podemos saber em que consiste uma solução adequada para o cubo mesmo sem sabermos produzir essa solução. Isso é possível porque podemos saber de antemão algumas características da solução final (por exemplo, que cada face precisa ter peças de uma única cor). Assim, podemos avaliar se uma solução proposta atende a um padrão pré-definido, mesmo que nós mesmos não consigamos atendê-lo. No projeto socrático acontece algo parecido. Sócrates parte de um tipo especial de pergunta e busca respostas que atendam a certos requisitos. Por isso, consegue dizer que as respostas fornecidas por seus interlocutores não atendem ao padrão esperado, mesmo sem ter uma resposta melhor a oferecer.
Que tipo de pergunta propõe Sócrates e que tipo de resposta espera alcançar? A pergunta socrática tem uma forma bastante simples: O que é X? No lugar de “X”, Sócrates coloca temas ligados à ética e ao bem viver, como a virtude, a reverência, a coragem, a beleza e a amizade. Estávamos diante de uma questão desse mesmo tipo na primeira parte do livro, quando perguntamos o que é o conhecimento proposicional. Apesar de simples na aparência, perguntas socráticas nos convidam a examinar nosso entendimento sobre a essência das coisas. E responder a muitas dessas perguntas continua sendo uma tarefa desafiadora, especialmente à luz do tipo de resposta que Sócrates buscava.
Sócrates esperava que uma resposta adequada a suas perguntas fornecesse uma definição dos temas abordados. Por exemplo, se Sócrates perguntasse a você “O que é uma cadeira?”, sua tarefa seria produzir uma definição de “cadeira”. Essa definição deveria atender a algumas exigências. A primeira delas é que a resposta precisa enunciar uma condição necessária para que algo seja uma cadeira. Em outras palavras, a resposta precisa descrever uma característica que seja comum a tudo o que chamamos de cadeira—uma característica que, quando ausente de um objeto, mostra que não é uma cadeira. Assim, se você respondesse que “Cadeira é um objeto com assento e quatro pernas”, Sócrates responderia que ter quatro pernas não é necessário para que algo seja uma cadeira, já que existem cadeiras sem quatro pernas, como aquelas usadas por cabeleireiros.
Uma segunda exigência é que a definição enuncie uma condição suficiente para que algo seja uma cadeira. Condições suficientes, como vimos no Capítulo 9, têm a ver com garantias. No caso das definições, uma condição suficiente indica uma característica que, quando presente em um objeto, garante que é uma cadeira. Se você respondesse que “Cadeira é um objeto com assento para uma única pessoa e com apoio para as costas”, Sócrates objetaria que isso não garante que o objeto seja uma cadeira, visto que poltronas também têm apoio para as costas e assento para uma única pessoa, mas não são cadeiras.
Uma terceira exigência da definição socrática é o poder explicativo. Isso quer dizer que as características elencadas na definição precisam explicar por que algo é uma cadeira. Se você tivesse um aplicativo no celular capaz de dizer de modo infalível o nome de objetos circundantes, de tal modo que uma cadeira pudesse ser definida como “aquilo que o aplicativo diz que é uma cadeira”, Sócrates mais uma vez objetaria. Desta vez, diria que ser classificado como uma cadeira pelo aplicativo não faz com que algo seja uma cadeira, isto é, a classificação não explica por que um objeto é uma cadeira.
Essa conversa imaginária nos dá uma ideia de como era discutir com Sócrates. Talvez você tenha sentido frustração, raiva ou mesmo uma determinação para encontrar uma solução para o enigma, da mesma maneira que uma pessoa poderia ficar determinada a resolver um cubo mágico, apesar de uma sequência de fracassos.
Seja qual for a sua reação, podemos agora extrair algumas observações sobre a natureza da investigação filosófica. Em primeiro lugar, ela parte de questões com uma forma simples, perguntando o que algo é. Sócrates concentrou suas perguntas em temas ligados ao bem viver, mas nada impede que pensemos sobre a natureza da verdade, do conhecimento, das espécies, dos números ou mesmo das cadeiras. Em segundo lugar, tal como acontece em vários dos diálogos escritos por Platão, as perguntas filosóficas não costumam levar a uma resposta única e final. Antes, tendem a produzir uma discussão filosófica, um bate e volta de tentativas de resposta, apontamentos de falhas e novas tentativas de contornar os problemas apontados.
A dificuldade de encontrar respostas finais para as questões da filosofia revela uma limitação da analogia com que começamos. Enquanto no cubo mágico é fácil reconhecer quando uma solução proposta está certa ou errada, na filosofia é relativamente fácil encontrar problemas nas respostas fornecidas, mas difícil reconhecer uma resposta satisfatória. Mesmo que você se esforce para dizer o que é uma cadeira, elencar condições necessárias, suficientes e que expliquem o que torna algo uma cadeira, sempre haverá a possibilidade de uma objeção importante ter escapado ao seu exame. É como se o cubo mágico filosófico só nos mostrasse uma face por vez. Assim, ainda que ver uma face embaralhada baste para concluirmos que o cubo não está solucionado, é possível vermos uma face solucionada mesmo se as faces ocultas estiverem embaralhadas. Por fim, essa limitação da analogia nos ajuda a reconhecer, como Sócrates fez, a importância do diálogo para a filosofia: se pessoas diferentes puderem ver faces diferentes de um mesmo cubo, então talvez cheguem mais perto de uma boa solução trabalhando juntas.
Nota: Paul Woodruff (2024) trata da pergunta e da definição socrática. Referência: WOODRUFF, Paul. Plato’s Shorter Ethical Works. In: ZALTA, Edward N.; NODELMAN, Uri (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2024 Edition). Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2024/entries/plato-ethics-shorter/. Acesso em: 27 jan. 2025.
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