Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

  • Aqui estão alguns métodos/dicas de escrita em filosofia que considero, no momento, os melhores que já encontrei. Considero-os muito úteis e acho que vale realmente a pena gastar alguns minutos com sua leitura.

    1. Há no site filósofo Stephen Yablo um excelente guia para a escrita de artigos filosóficos. Para quem não lê em inglês, uma tradução automática pelo Google Tradutor pode ser acessada aqui.
    2. Stephen Mumford apresenta sucintamente um método que promete aumentar consideravelmente a qualidade da escrita de artigos, e também diminuir o número de versões necessárias para se chegar a algo publicável (a tradução para o português de Flavio Williges está disponível aqui).
    3. Por fim, Robert P. Wolff oferece um conjunto de sugestões muito úteis sobre a escrita de teses/dissertações em filosofia, disponível em inglês aqui (e traduzido pelo Google Tradutor aqui).
    4. [Edição:] Mais umas dicas muito úteis escritas por Richard Price, disponíveis aqui.
  • Um grande número dos preconceitos mais comuns na sociedade tem a forma seguinte:

    Gs são Ps.

    Para ver essa fórmula funcionando, basta que substituamos ‘G’ por um termo que se refira a certo grupo (o alvo do preconceito) e ‘P’ por algum termo com significado pejorativo (que servirá para desqualificar os indivíduos do grupo em questão). Assim, aqui estão alguns exemplos bem conhecidos:

    Homens são mulherengos.
    Homossexuais são nojentos.
    Loiras são burras.
    Negros são preguiçosos.
    Alemães são teimosos.

    Como podemos ver, essas afirmações se enquadram no esquema anteriormente apresentado, tendo no lugar de ‘G’ termos que nomeiam certo grupo (‘homem’, ‘homossexual’, ‘loira’, ‘negro’, ‘alemão’), e no lugar de ‘P’ termos que expressam um significado pejorativo (‘mulherengo’, ‘nojento’, ‘burra’, ‘preguiçoso’, ‘teimoso’). Infelizmente, não é raro encontrar alguém proclamando afirmações desse tipo com a intenção de ofender ou discriminar alguém. No que segue, ofereço uma análise lógica desses enunciados, buscando mostrar por que em geral não é muito inteligente fazer afirmações desse tipo. É uma análise lógica e, por isso, deixa de lado outros problemas tão ou mais sérios com esse tipo de fenômeno (éticos, sociais, psicológicos etc.).

    A primeira coisa a ser notada é que quando alguém que faz afirmações da forma “G’s são P’s” pretende estar falando sobre o grupo referido por ‘G’ como um todo. Se alguém diz, por exemplo, “Os homens são mulherengos”, então está implicitamente pretendendo falar de todos os homens, pois o preconceito perderia todo o seu poder se falasse apenas de ‘alguns’ (ou de ‘muitos’) em vez de falar de ‘todos’. Assim, a fórmula com que começamos representa apenas a forma exterior das afirmações preconceituosas. Mas, por traz das aparências, uma fórmula que apresentaria mais explicitamente o conteúdo real dos enunciados seria como segue:

    Todos os Gs são Ps.

    Assim, alguém que diz que “Homens são mulherengos”, por exemplo, está realmente pretendendo dizer que “Todos os homens são mulherengos”. Podemos chamar esse tipo de afirmação de afirmações universais, e para ver o que em geral torna difícil sustentá-las temos de analisar o que elas exigem para serem verdadeiras.

    Uma afirmação universal como “Todos os homens são mulherengos”, por exemplo, é verdadeira se, e somente se, todos os homens de fato são mulherengos. Pela mesma razão, essa afirmação é falsa se, e somente se, houver ao menos um homem que não é mulherengo. Uau! Veja bem o que acabamos de dizer: para que uma afirmação como “Todos os homens são mulherengos” seja falsa, basta que haja um único caso de homem que não seja mulherengo. O mesmo vale para todas as afirmações com forma “Todos os G’s são P’s”, e mostra que é muito mais fácil mostrar que um preconceito é falso do que mostrar que é verdadeiro. Como vimos, essa é a forma de um grande número de afirmações preconceituosas.

    Começamos então a nos dar por conta de por que é em vários casos parece pouco racional fazer afirmações universais preconceituosas. A razão é que é muito mais fácil mostrar que elas são falsas do que sustentar que são verdadeiras. Se eu digo que todos homens são mulherengos, basta que alguém me apresente um único homem que não seja mulherengo para falsificar o que eu disse. Neste caso, podemos dizer que um homem não-mulherengo serve de contraexemplo para a afirmação universal de que todos os homens são mulherengos.

    Assim, para mostrar que qualquer preconceito da forma “Todos os G’s são P’s” é falso, basta encontrar um contraexemplo da forma “Há um G que não é P”. Voltando aos outros (maus) exemplos que vimos antes, vejamos quais seriam seus respectivos contraexemplos. Uma pessoa homossexual que não é nojenta serve de contraexemplo para a afirmação de que “Todos os homossexuais são nojentos”. Do mesmo modo, uma mulher loira inteligente é um contraexemplo para a afirmação “Todas as loiras são burras”. Uma pessoa negra não preguiçosa, por sua vez, é um contraexemplo para “Todos os negros são preguiçosos”. E uma pessoa de origem alemã que não é teimosa é um contraexemplo para “Todos os alemães são teimosos”. Quem quer que afirme preconceitos como esses está sujeito a ter sua afirmação refutada assim que um contraexemplo seja apresentado. E como um único contraexemplo basta, eu posso lhe garantir que todos os preconceitos com que começamos (e muitos outros similares) são, de fato, falsos. Eu posso lhe garantir, se você mesmo não puder fazê-lo, que todos os preconceitos que analisamos são falsos. Pois eu conheço ao menos uma pessoa que serve de contraexemplo para cada um deles. E, dado que eles expressam-se em afirmações universais, um único contraexemplo para cada é suficiente para mostrar que são falsos.

  • Ao longo dos anos que já dediquei à filosofia, sempre me foi presente a questão sobre como tornar-se um filósofo, um bom filósofo, ou um filósofo profissional. Coloco aqui meus pensamentos atuais sobre o assunto, na esperança de que possa receber comentários, sugestões, críticas e, quem sabe, ser útil a mais alguém.

    Quando me faço a pergunta do título, no fundo, estou contrastando uma maneira de voltar-se à filosofia com duas outras: fazer história da filosofia profissionalmente, ou apenas levar uma vida reflexiva, ser um pensador livre. No que segue, direi o que penso sobre como fazer filosofia, por contraste a esses outros dois modos, contra os quais nada tenho a dizer (sobre o contraste filosofia/história da filosofia, recomendo a palestra de Oswaldo Porchat Pereira e a entrevista com Desidério Murcho).

    Mas bem, poderia haver alguma fórmula ou caminho seguro rumo à atividade filosófica profissional? Obviamente a resposta deve ser que não. Mas eu ainda assim gostaria de sugerir alguns passos que penso poderem ser de grande ajuda, e que talvez tivessem aprimorado minha experiência filosófica, se me tivessem sido sugeridos algum tempo atrás.

    • Qual tema? Qual questão?

    Um primeiro ponto diz respeito ao assunto sobre o qual trabalharemos. A filosofia é uma área muito vasta do conhecimento, e praticamente qualquer coisa está sujeita a ser abordada filosoficamente em alguma medida. (Em alguma medida, pois, por exemplo, que água seja H2O não parece ter qualquer interesse filosófico, apesar de haver inúmeras questões filosóficas interessantes envolvendo a química que são abordadas em filosofia da ciência e filosofia da química).

    Bem, dada a abrangência permitida pela filosofia, teremos de escolher, delimitar, alguma área. E, em princípio, podemos nos guiar aqui por duas opções: o que nos interessa pessoalmente e o que é um assunto relevante (por razões teóricas ou circunstanciais). Obviamente que o interesse pessoal deverá ter um peso considerável, pois é dele que dependerá a energia para tocar o barco adiante. Mas, dado que geralmente será preciso escolher questões mais específicas, problemas passíveis de solução no prazo de um projeto com duração temporal delimitada, o quesito da relevância poderá ajudar nesta delimitação dentro de uma tema maior de interesse pessoal. Algumas  questões mais técnicas, por exemplo, podem ser pouco interessantes por si mesmas, mas podem ser de grande relevância para questões mais amplas, em assuntos que podem ser dos mais interessantes. E outras questões técnicas podem ser absolutamente laterais que há pouca esperança de se conseguir algo relevante pessoal ou teoricamente com elas. Então, talvez seja bom levar isso em conta na hora de delimitar o tema e as questões específicas a serem investigadas.

    Como deve ter sido possível notar, em momento algum falei algo sobre qual “autor” ou “escola” filosófica escolher. Se o interesse é em fazer filosofia, e não história da filosofia, os autores não são o alvo, são secundários. É claro que teremos que ler algum(ns) autor(es), pois afinal, não há material que não tenha sido produzido por alguém. Mas, isto deve ficar claro, aquilo que vamos ler é fruto de uma delimitação temática anterior, e não o inverso. Então, depois de delimitado o assunto, temos de encontrar alguma maneira de selecionar os autores e os textos relevantes a serem estudados.

    • O que ler?

    O que ler, portanto, deve ser decidido em função do tema escolhido. E isso vale para livros e artigos e também para autores. O principal problema agora, dada a delimitação maior determinada pelo tema escolhido, é a enorme quantidade de material que encontramos hoje em dia (especialmente na internet) em praticamente qualquer assunto.  O problema, portanto, é um problema de escolha, delimitação.

    Uma primeira sugestão que eu gostaria de fazer é que é muito difícil para o autodidata resolver essa tarefa de seleção. Presumimos que para dizer se algo é pertinente ou não para certos propósitos, é necessário conhecer esse algo. Assim, parece que teríamos que ler tudo o que existe para poder depois ter uma lista daquilo que é relevante. Em parte isso é mais ou menos assim, exceto pela impossibilidade prática de se ler tudo. O iniciante autoditada, então, está numa situação paradoxal: para escolher o que ler, teria de já conhecer o que lerá; mas para conhecer, terá de escolher por onde começar.

    Minha sugestão é deixar de ser completamente autodidata aqui: precisaremos de ajuda. A pergunta, então, é: a ajuda de quem. A seguir, darei indicarei alguns recursos que podem servir (combinados, provavelmente, eles serão mais eficientes):

    Antologias: em português esse tipo de material não é muito comum (ao menos na filosofia). Uma exceção é a antologia Viver para quê? Ensaios sobre o sentido da vida, organizada por Desidério Murcho. Em inglẽs, temos uma variedade de antologias sobre vários temas: metafísica, ética, filosofia da mente, filosofia da lógica, filosofia da linguagem, livre arbítrio e muitas outras. O propósito desses materiais, em geral, é reunir textos consagrados em uma certa área de estudo, especialmente os que compõem as questões atualmente em discussão.

    Enciclopedias: há ao menos duas enciclopédias on-line de filosofia consagradas: a Stanford Encyclopedia of Philosophy e a Internet Encyclopedia of Philosophy. Em ambas, filósofos consagrados escrevem artigos de revisão das questões e da literatura em relevante atualmente em suas áreas de estudo. Ler esses verbetes ajuda a tomar conhecimento do estado da arte nos respectivos temas, e oferece uma lista bibliográfica (já comentada) que pode muito bem servir para selecionar o material a ser estudado no tópico escolhido.

    Listas bibliográficas: provavelmente a referência mais consagrada aqui seja o Philpapers.org. Esse indexador de livros e artigos apresenta os materiais categorizados por tópico e subtópico. Muitas das categorias são organizadas por profissionais reconhecidos, que também indicam a relevância dos materiais para suas respectivas áreas. Um novo recurso parecido é o portal Oxford Bibliographies.

    Uma sugestão que alguns fariam, além das acima, é também ficar a par dos avanços científicos que se dão em áreas relacionadas aos tópicos de interesse filosófico, já que muitas vezes esses avanços são relevantes para as discussões filosóficas.

    Bem, é importante ressaltar que tudo isso é apenas um grande esboço. Muito mais poderia ser acrescentado, e sugestões em direções divergentes poderiam ser dadas por outras pessoas. Comentários, sugestões e críticas serão muito bem-vindos, e eu espero que isso possa servir de orientação a mais alguém.

  • Um dos problemas filosóficos clássicos é o chamado problema do livre-arbítrio.  Eis uma apresentação do problema feita por Peter van Inwagen:

    “O problema do livre-arbítrio, em suas linhas mais gerais, é este. O livre-arbítrio parece incompatível tanto com o determinismo como com o indeterminismo. O livre-arbítrio, portanto, parece impossível. Mas o livre-arbítrio também parece existir. O impossível, portanto, parece existir. Uma solução ao problema do livre-arbítrio seria uma maneira de resolver essa aparente contradição. Parece haver três formas que uma solução poderia adotar, três maneiras pelas quais poderíamos tentar resolver a aparente contradição. Poderíamos tentar mostrar, como fazem os compatibilistas, que, apesar das aparências, o livre-arbítrio é compatível com o determinismo. Ou poderíamos tentar mostrar, como fazem muitos incompatibilistas, que, apesar das aparências, o livre-arbítrio é compatível com o indeterminismo. Ou poderíamos tentar mostrar, como fazem muitos ‘deterministas duros’ [hard determinists], que a aparente realidade do livre-arbítrio é uma mera aparência” (Peter van Inwagen, “Free will remains a mystery”, in R. Kane, ed., The Oxford Handbook of Free Will. Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 169).

    O problema do livre-arbítrio, tal como descrito por van Inwagen, é um problema filosófico de tipo metafísico. Uma literatura em português sobre esse assunto está disponível na seção de Metafísica da revista Crítica.

    Atualização: esta postagem recebeu pequenas modificações em 17 de julho de 2018.

  • Uma proposta de estudar-se cientificamente os sonhos, levando em conta as últimas descobertas em nerociências, ciências cognitivas e ferramentas para a análise quantitativa do conteúdo dos sonhos. Essa é a proposta do livro The scientific study of dreams, escrito por William Domhohh. Minha resenha do livro foi publicada no último número da revista Cognitio-Estudos.

    Aproveito o post para mencionar também dois outros trabalhos. Um deles já foi mencionado alguns posts abaixo, mas não explicitamente: trata-se de minha tradução para o português de “Ações, razões e causas“, de Donald Davidson, publicado na revista Crítica, a qual, infelizmente, foi encerrada este ano. Este artigo é um clássico na filosofia da ação e fdefende a tese, muito contestada na sua época, de que a explicação de ações por apelo a razões (crenças, desejos, intenções) é um tipo de explicação causal.

    O segundo é uma tradução conjunta com Marco Aurélio, e revisada por André Abath, do artigo “Consciência” (original da Stanford encyclopedia of philosophy e escrito por Robert Van Gulick) publicada na revista Investigação Filosófica. Trata-se de um artigo de referência para quem quer informar-se do estado atual da discussão em torno do fenômeno da consciência em filosofia da mente.

  • Há alguns dias, escolhi esse tópico para postar no dia do nascimento do meu primeiro filho, Davi. Enquanto ele estava na barriga da mãe, desde sua descoberta até seus últimos dias no escuro quentinho, nos relacionamos com ele de várias maneiras: no palitinho do teste de farmácia, no primeiro ultrassom, quando chutava a barriga, quando lhe atribuíam o desejo de um doce ou uma bergamota…

    Então: quando nasce alguém? Nascer é sair do útero materno? Nascer não significa sofrer nenhuma mudança ou atingir um novo grau de maturidade? Não há muita diferença entre aquele que estava ontem ali dentro e hoje está aqui entre nós. Não é nele que reside a diferença! E a diferença entre o bebê aqui fora e aquilo que pintava o palitinho lá atrás é uma diferença de vários graus, sucessivos, incansáveis e incontáveis. Nascer não pode ser apenas uma mudança nas características físicas ou biológicas – ao menos não estas que se mantiveram constantes de ontem pra hoje!

    Nascer talvez seja, então, um fato social. Quando alguém passa a estar no meio dos homens e das mulheres, estar protegido por suas leis e sua moralidade. Mas  por quê? Isso já estava acontecendo antes também! Quem sabe nascer queira dizer que agora os outros precisam esforçar-se para lhe entenderem. Sim, entender se o choro é fome ou frio ou sono, ou se é hora de trocar a fralda. O bebê pode agora manifestar seus quereres, suas vontades. É isso nascer?

    Não sei, de novo. Antes já tentávamos lhe entender. “Para qual lado ele gosta mais de deitar-se? O que ele quer comer? Será que quer nascer!?” Talvez a conclusão seria que ele de fato já tinha nascido bem antes, que seu nascimento é uma mistura de biologia, com cuidados, preocupações, sentimentos… uma coisa que não tem data nem componentes bem definidos.

    Bem vindo, meu filho Davi. Este post é pra que um dia te lembres que certas perguntas não são fáceis de responder. E tu nasceste e terás de ir adiante mesmo sem ter as respostas de antemão. As grandes questões continuam sem respostas, e, talvez, no fim das contas, nascer venha a ser lançar-se ao mundo sem um rumo certo, sem certezas, com projetos sempre semi-acabados. Mas eu desejo que possas ver, também, que é neste mundo, do jeito misturado que ele é, que alegrias e emoções acontecem. São elas, que por vezes tornam incontrolável uma lágrima no canto do olho, que nos tiram a dúvida de que a vida vale a pena!

  • Eu li essa ideia num livro que não tenho aqui disponível agora para fazer a devida referência. Mas se lembro-me bem é mais ou menos assim: a tese de que eventos mentais são epifenômenos, isto é, a tese de que os eventos mentais são causados por, mas não causam, eventos físicos é uma posição autorrefutante.

    Posições autorrefutantes são aquelas que são cuja verdade criaria um próprio contraexemplo para elas próprias ou acarretaria sua negação de alguma outra maneira. Um exemplo de proposição autorrefutante seria a seguinte:

    • (1) Esta não é uma frase com sentido em português.

    (1) é falsa pelo simples fato de ser o que é e dizer o que diz. Assim, seria conveniente ver em que sentido a tese do epifenomenalismo dos eventos mentais seria uma tese autorrefutante. Uma versão forte da tese poderia ser a seguinte:

    • (E) Todos os eventos mentais são causados por, mas não causam nenhum, evento físico.

    Alguém que acreditasse em (E) e tentasse defendê-la estaria, por esse fato e pelo conteúdo de (E) já refutando (E). Se a pessoa acredita, enuncia e quer defender (E), então tem de estar defendendo (com todas os efeitos físicos, verbais e comportamentais acarretados) a tese por causa desses desejos, crenças etc. Se defende porque acredita que a tese é verdadeira, então não pode ser verdade que nenhum evento mental causa um evento físico.

    Mas, ainda assim, seria coerente (não seria autorrefutante) defender uma versão mais fraca do epifenomenalismo:

    • (E’) Alguns eventos mentais são causados por, mas não causam nenhum, evento físico.

    Alguém poderia perfeitamente defender essa posição, ainda que teria de negar que os eventos mentais que motivam ou causam essa defesa sejam eventos do tipo que (E’) afirma existir.

    A moral da história deste post é, assim, dupla. Primeiro, apresentei uma estratégia argumentativa de testar a verdade de qualquer posição ou tese: testar se ela é autorrefutante. Segundo, fiz uma distinção entre teses epifenomenalistas sobre eventos mentais: a versão mais forte (universal) mostrou-se uma posição autorrefutante; mas o mesmo não necessariamente se dá com a versão mais fraca.

  • Meu projeto de mestrado é voltado justamente para o tópico indicado no título deste post. Como dados iniciais, o que temos são os dois fatos seguintes:

    1. Alguns fenômenos mentais causam fenômenos físicos
    2. Todo fenômeno físico tem uma causa também física

    Essas duas afirmações parecem ser ambas verdadeiras, representando fatos corriqueiros da nossa pintura ordinária do mundo e de nós mesmos.

    Sob 1, por exemplo, inclui-se o fato de que posso apertar as teclas do computador porque quero escrever este texto. O ‘porque’ aqui é entendido causalmente: eu querer escrever é (parte da) causa de eu apertar as teclas. E meu querer é um exemplo característico de fenômeno mental. Assim, um fenômeno mental (querer escrever…) causa um fenômeno físico (teclas serem apertadas).

    Sob 2, incluiríamos, por exemplo, a suspeita de que só um evento físico pode causar outro evento físico. No caso em questão, é o movimento (com certa força, em certa direção e sentido) de um certo corpo físico (minha mão) que causa o movimento de outro corpo físico, as teclas. Supostamente (e a suposição parece verdadeira), sempre encontraríamos fenômenos físicos como responsáveis causalmente pela causa, da causa, da causa… do movimento das teclas, da mão, dos nervos e músculos…

    E agora, como combinar esses dois fatos (assumindo que são realmente fatos)?

    Ao menos três respostas estão disponíveis na literatura: o monismo anômalo, de Davidson, o funcionalismo, de Fodor, e o fisicalismo redutivista, de Kim. Falarei um pouco sobre a solução proposta pelo primeiro.

    A solução de Davidson tenta mostrar que conseguimos combinar os fatos razoavelmente bem se assumirmos que fenômenos mentais são fenômenos físicos. Tomando nosso exemplo acima novamente, eu querer escrever seria também um fenômeno físico: Ele poderia também ser verdadeiramente descrito como um movimento dos músculos (ou talvez, melhor ainda, como aquilo que causa esses movimentos) durante o ato de escrever. Nessa solução de Davidson, isto é tudo o que há para algum acontecimento ser mental, físico ou ambos: ter uma descrição mental, física ou ambas. Assim, para que todo evento mental seja físico, é preciso que todo evento descrito como mental possa ser também descrito como físico. Assim, no caso dos fenômenos associados com 1, quando um fenômeno mental causa um fenômeno físico, isso não conflitua com 2, pois esse mesmo fenômeno mental causador poderá, supostamente, ser descrito como físico, e assim não será um contraexemplo para 2.

    Um breve comentário sobre essa solução. Poderíamos ficar com uma suspeita sobre em que medida um fenômeno ou acontecimento é de fato mental ou fisico apenas por ser descrito dessa ou daquela maneira. Obviamente, as descrições em questão têm de ser verdadeiras (já que de outro modo poderíamos trivialmente considerar qualquer acontecimento como mental, físico ou o que quer que seja). E, também, parece que precisamos de uma versão modal: um acontecimento tem de poder ser verdadeiramente descrito de um certo modo (de outro modo só existiriam acontecimentos mentais ou físicos quando também existissem seres fazendo descrições verdadeiras dessas coisas). Bem, mas a verdade de uma certa descrição depende de suas coisas, da descrição (seu significado) e de como a coisa descrita é. Em outras palavras, uma descrição mental M de um acontecimento x é verdadeira em parte pelo significado de M, suas condições de verdade, e em parte pelo fato de x ser dessa ou daquela forma. A solução descrita acima, então, teria de estar comprometida também com a tese de que certos acontecimento podem ser de um modo tal que permitiriam tanto uma descrição verdadeira mental como uma física.

    Em um próximo post, tentarei mostrar um problema que Kim vê na solução de Davidson, o qual não reside nessa descrição da solução de Davidson que fiz aqui, mas, antes, nas premissas que Davidson adota para oferecer sua defesa da solução proposta. Trata-se do problema do epifenomenalismo, ou seja, Kim pensa que o monismo anômalo não garante que acontecimentos mentais sejam causalmente eficazes na produção de efeitos físicos, ou mesmo mentais. Até lá.

  • Essays on actions and events (Clarendon Press, 2001, 2nd ed.) reúne dezessete ensaios publicados por Donald Davidson entre 1963 e 1985. Esses escritos abordam temas de filosofia da ação, da mente, ontologia, entre outros. Nas palavras introdutórias do próprio autor, o tema unificador

    é o papel de conceitos causais na descrição e explicação da ação humana. A tese é que a noção ordinária de causa, que entra nas explicações científica e do senso comum de assuntos não-psicológicos, também é essencial para o entendimento do que é agir com uma razão, ter uma certa intenção ao agir, ser um agente, agir contra o próprio melhor juízo, ou agir livremente. A causa é o cimento do universo; o conceito de causa é o que mantém unida a nossa imagem do universo, uma imagem que de outro modo iria desintegrar-se em um díptico do mental e do físico. (p. xv)

    Esses artigos foram muito influentes e discutidos. Entre as obras que foram dedicadas à sua discussão, encontramos os livros organizados por Lepore e McLaughlin (1985), por Vermazen e Hintikka (1985), por Heil e Mele (1993) e por Hahn (1999), além de inúmeros outros artigos que continuam discutindo a obra de Davidson. Em sua resenha do livro, Tyler Burge (1983) declara que vários dos ensaios foram extremamente influentes, “particularmente ‘Actions, reasons, and causes’ [Ensaio 1], ‘How is weakness of the will possible?’ [Ensaio 2], “The logical form of action sentences’ [Ensaio 6], ‘Mental events’ [Ensaio 11’” (p. 608), e que “um (‘Actions, reasons, and causes’) mudou a direção de um assunto [subject]” (p. 608).

    A seguir, ofereço um comentário ao primeiro artigo da coltânea. As citações foram feitas com base na tradução para o português “Ações, razões e causas”, publicada na revista Crítica. Os números das páginas, no entanto, referem-se ao artigo original em inglês.

    Ensaio 1: “Actions, reason, and causes” [Ações, razões e causas] (1963)

    A tese principal de “Ações, razões e causas” é que racionalizações (ou a explicação de ações com base em suas razões) são um tipo de explicação causal. Uma razão (ou uma razão primária) consiste no par formado por (a) a atitude favorável de alguém dirigida a ações de um certo tipo (exemplos desse tipo de atitude são querer, desejar, considerar um dever ou uma ação valiosa) e (b) uma crença de que a ação realizada é daquele tipo.
    A tese de Davidson pode ser ilustrada mediante um dos seus próprios exemplos. Digamos que eu pressione o interruptor da sala. Uma explicação dessa ação poderia ser:

    E1. Pressionei o interruptor porque queria acender a luz e sabia (ou acreditava) que pressionando o interruptor a luz se acenderia.

    Segundo a tese de Davidson, a razão primária, mencionada após o ‘porque’ de E1, é a causa da minha ação de pressionar o interruptor, descrita antes de ‘porque’.
    Mas há um problema a ser enfrentado aqui. Uma mesma ação pode ser descrita de maneiras diversas, embora a racionalização só aconteça quando a descrição da razão é adequada à descrição da ação. Seguindo o exemplo anterior, imagine que ao pressionar o interruptor eu tenha também alertado um ladrão do fato de que estava em casa. Davidson diz que nesse caso não haveria dois eventos – pressionar o interruptor e alertar o ladrão –, mas apenas um, sob duas descrições diferentes. A razão apresentada em E1, no entanto, não racionaliza o fato de que alertei o ladrão. E2 é uma racionalização incorreta:

    E2. Alertei o ladrão porque queria acender a luz e sabia que pressionando o interruptor a luz se acenderia.

    Mesmo que o evento de eu pressionar o interruptor tenha sido, segundo Davidson, o mesmo evento de alertar o ladrão, disso não se segue que E1 e E2 sejam ambas verdadeiras. Há um caráter intensional nas racionalizações, ou seja, a substituição de termos com mesma referência não garante a preservação da verdade.
    Para evitar esse tipo de problema, Davidson formula uma condição necessária mais refinada para razões primárias:

    C1. R é uma razão primária pela qual um agente realizou a ação A sob a descrição d somente se R consiste numa atitude favorável do agente em relação a ações com certa propriedade, e da crença do agente de que A, sob a descrição d, tem tal propriedade. (p. 5)

    Com essa qualificação, Davidson coloca em evidência que razões podem tornar racionais certas ações apenas se a ação e a razão são descritas apropriadamente. O restante do artigo representa um argumentação intensa de Davidson contra várias objeções, então vigentes, à tese de que razões são causas, ou que racionalizações são explicações causais.

    Objeção 1: justificação exclui causalidade (pp. 8-9)

    Quando revelamos a razão pela qual alguém agiu, diz Davidson, “uma ação revela-se coerente com certos traços do agente, de curto ou longo prazo, característicos ou não, e o agente é apresentado no seu papel de Animal Racional” (p. 8). Por isso, há um sentido um tanto fraco em que racionalizações são justificações: “do ponto de vista do agente houve, quando agiu, algo a dizer em favor da ação” (p. 9).
    A primeira objeção pode ser construída nas seguintes linhas gerais. Nas explicações causais ordinárias (o vidro quebrou porque foi atingido por uma pedra) não há nenhum caráter justificador envolvido na explicação. Por isso, poderíamos pretender concluir que racionalizações são um tipo diferente de explicação, provavelmente não-causal. Haveria dois tipos de explicações, um por justificação (as racionalizações) e outro causal (demais contextos).
    Davidson responde que não precisamos conceber esse caráter justificativo das racionalizações como excluindo a causalidade. Mesmo que admitíssemos que toda razão fosse por si só uma justificação da ação que racionaliza, “não se segue que a explicação não seja também – e necessariamente – causal” (p. 9).
    Em uma resposta complementar, Davidson sugere uma diferença entre a justificação e a explicação que uma razão pode fornecer. Para que uma razão explique uma ação é necessário que a ação tenha sido realizada por (causa de) aquela razão (ver p. 9). Mas isso não é necessário para que uma razão justifique uma ação. Se tiro uma criança pequena de perto de um aparelho elétrico, por exemplo, uma razão que justificaria essa ação seria que pensei que a criança poderia machucar-se. Mas talvez essa não tenha sido a razão em virtude da qual realizei tal ação. Eu poderia, por exemplo, ter feito aquilo porque não queria que a criança estragasse o aparelho. A primeira razão poderia servir de justificativa, ainda que não fosse a razão por que a ação foi realizada. Mas, para servir de explicação, a razão tem de ser aquela pela qual eu agi. Portanto, mesmo que toda explicação por racionalização tenha algum grau de justificação, uma justificação não necessariamente é uma explicação.

    Objeção 2: redescrição exclui causalidade (pp. 9-11)

    Quando explicamos uma ação mediante razões, o que fazemos é redescrevê-la: um movimento com a mão pode ser redescrito, de modo a tornar-se, compreensível como uma ação de pressionar um interruptor para ligar a luz; um outro movimento pode ser descrito como uma certa jogada de xadrez, e assim por diante.
    Com base nessa característica das racionalizações, foi elaborada uma objeção inspirada em Wittgenstein contra a tese de que razões possam ser causas. Segundo ela, a causalidade é uma relação entre dois eventos distintos (a causa e o efeito), mas se numa racionalização redescrevemos um único evento, não pode haver aí uma relação causal.
    Davidson responde a essa objeção apontando que em explicações causais ordinárias também empregamos a redescrição: “Suponha-se que alguém se machucou. Poderíamos redescrever esse evento ‘em termos de uma causa’ dizendo que se queimou” (p. 10). Nesse caso a redescrição mencionaria a causa (queimar-se) do efeito (machucar-se). Além disso, crenças e desejos (e, portanto, razões) “certamente não são idênticas a ações” (p. 10). Consequentemente, não estamos comprometidos em dizer que há apenas um evento envolvido na redescrição que racionaliza uma ação; e se o tipo de explicação envolvido não é causal, é preciso que os defensores desta tese esclareçam qual seria o tipo de explicação em questão.

    Objeção 3: estados não são causas (pp. 12-13)

    Segundo essa objeção, “razões primárias consistem em atitudes e crenças, que são estados ou disposições, e não eventos; portanto, não podem ser causas” (p. 12). A resposta de Davidson é que podemos identificar ou até pressupor (quando for desconhecido) um evento precedente. Embora um desejo não seja um evento, por exemplo, o seu surgimento é. Crenças ou desejos podem surgir quando vemos ou notamos algo, e estes são eventos, e mesmo quando não sabemos atualmente qual foi o evento precedente, podemos pressupor que houve um.
    No entanto, essas considerações não nos deveriam levar a pensar que as racionalizações são diferentes das explicações causais ordinárias. Por exemplo, também poderíamos explicar a queda de uma ponte dizendo que caiu porque tinha um defeito estrutural. Ainda que um defeito estrutural seja um estado, pressupomos que houve um evento que o causou, mesmo quando este nos é desconhecido.

    Objeção 4: dependência lógica exclui relação causal (pp. 13-15)

    De acordo com essa objeção, o fato de a razão primária e a ação que ela racionaliza não serem logicamente independentes seria um ponto contra a existência de uma relação causal entre elas. Isso tem conexão com a objeção 2, apresentada acima: como a racionalização oferece uma redescrição, não haveria dois eventos sendo descritos (e isso talvez signifique que há a ação e a razão não são logicamente independentes). Causa e efeito, por outro lado, são coisas diferentes (logicamente independentes), e, por isso, racionalizações não seriam explicações causais.
    Parte da resposta de Davidson consiste em defender que “A verdade de uma afirmação causal depende de quais eventos são descritos; [mas] o seu estatuto como analítico ou sintético depende de como os eventos são descritos” (p. 14). Por exemplo, quando afirmamos que o evento A causou o evento B, estamos proferindo uma frase sintética (ou empírica). Mas poderíamos também fazer uma afirmação causal analítica, mantendo uma relação lógica entre as descrições da causa e do efeito, ao afirmar que a causa de B causou B. A relação lógica estabelecida na segunda afirmação não exclui a existência de uma relação causal entre os eventos descritos. Relações lógicas são relações entre frases ou descrições, mas relações causais são relações entre eventos.

    Objeção 5: causalidade exige leis (pp. 15-17)

    Esta quinta objeção assume uma concepção humeana de causalidade de acordo com a qual a existência de uma relação causal singular implica que existe uma lei causal subjacente. Mas, não temos leis causais que relacionem razões e ações, e, por isso, segue-se que racionalizações não são explicações causais.
    Davidson aceita que de fato não há leis causais em sentido estrito formuladas em termos de ações e razões (no Ensaio 11, entre outros, ele defende que sequer é possível esse tipo de leis). Mas isso não nos deveria impedir de considerar a explicação em questão como causal. De fato, isso também não nos impede em outros casos. Por exemplo, podemos estar certos de que uma vidraça foi quebrada por causa de uma pedrada. Mas em geral não temos conhecimento de uma lei causal precisa que diga quais tipos de pedradas, precisamente, irão quebrar quais tipos de vidraças.
    Mas Davidson defende ainda que não temos necessariamente de abandonar a posição humeana de que a causalidade está vinculada à existência de leis causais. Podemos interpretar a exigência de leis de uma maneira alternativa. Uma relação causal singular implica a existência de uma lei, mas não é necessário que a lei seja formulada nos mesmos termos em que o relato da relação causal singular foi feita. O exemplo de Davidson em favor disso é o seguinte:

    Suponha-se que um furacão, que é noticiado na página cinco do Times de terça-feira, causa uma catástrofe, noticiada na página treze de quarta-feira do Tribune. Então, o evento noticiado na página cinco do Times de terça-feira causou o evento noticiado na página treze do Tribune de quarta-feira. Deveríamos procurar uma lei relacionando eventos destes tipos? (p. 17)

    Seria obviamente tolo procurar uma lei causal formulada em termos de quais eventos noticiados em quais jornais causam quais eventos noticiados em quais outros jornais. Seria muito mais plausível buscar uma lei meteorológica, ou mesmo física, ainda que sob essas descrições tais eventos possam não nos ser muito interessantes. Sendo assim, Davidson defende que, apesar de causalidade envolver leis e de não haver leis formuladas em termos de ações, crenças, quereres e razões, disso não se segue que eventos descritos como ações e razões podem instanciar leis formuladas em outros termos – pode haver leis “neurológicas, químicas ou físicas” (p. 17) para os eventos em questão.

    Objeção 6: leis causais e tipos de conhecimento (pp. 17-18)

    Esta objeção diz que o tipo de conhecimento que se tem das próprias razões apresenta as várias características peculiares ao conhecimento de primeira pessoa. Mas nossa maneira de adquirir conhecimento de relações causais usualmente não seria esse: “uma pessoa conhece infalivelmente as suas intenções ao agir, sem indução ou observação, e nenhuma relação causal comum pode ser conhecida desse modo” (pp. 17-18).
    Davidson aceita que em geral não precisamos de observação ou de inferências indutivas para conhecer as razões por que agimos, apesar de contestar que esse conhecimento de primeira pessoa tenha de ser infalível. No entanto, ele responde à objeção dizendo que, do fato de que a observação e a indução sejam uma das maneiras de se adquirir conhecimento de relações causais, não se segue que seja a única maneira. Consequentemente, não se segue que o conhecimento de primeira pessoa não seja também um conhecimento de relações causais.

    Objeção 7: causalidade exclui liberdade (pp. 18-19)

    A discussão desta objeção encerra o primeiro artigo. Davidson fala de um “certo desconforto que alguns filósofos sentem em falar […] de causas de ações” (p. 18). Segundo eles, se ações fossem causadas, o agente seria uma vítima do que acontece nele e com ele. Davidson pergunta-se:

    Por que haveria uma causa de tornar uma ação um mero acontecimento e uma pessoa uma vítima indefesa? Será porque tendemos a supor, ao menos na área da ação, que uma causa requer um causador, a agência um agente? Assim, insistimos na pergunta: se minha ação é causada, o que a causou? Se fui eu, então há o absurdo do regresso ao infinito; se não fui, sou uma vítima. Mas é claro que estas alternativas não são exaustivas. Algumas causas não têm agentes. Entre estas, estão os estados e mudanças de estado nas pessoas; estados e mudanças esses que, porque são tanto razões como causas, constituem certos eventos livres e certas ações intencionais. (p. 19)

    É difícil entender o que essa passagem quer dizer. Sem pretender avaliar a sugestão de Davidson, ofereço uma sugestão de leitura.
    Qual é o “regresso ao infinito” do qual Davidson fala? Por que um agente seria uma “vítima”? Para ler essa passagem, tento ilustrá-la a partir de um exemplo. Suponha que o agente A gritou. Assim, temos a ação 1:

    a1. A gritou.

    Levando em conta as suposições acusadas por Davidson, se aceitamos que a1 é causada, perguntaríamos: o que é a causa de a1?
    Uma sugestão poderia ser que o agente A causou sua ação a1. Bem, mas assim teríamos já uma segunda ação:

    a2. A causou a1.

    Aqui, novamente, poderíamos nos perguntar sobre o que causou a ação a2, e chegaríamos a uma ação a3, depois a4, e assim por diante.
    Se essa sugestão de um regresso ao infinito não nos agrada, então poderíamos negar que a causa de a1 é o agente A. Nesse caso, poderia também nos desagradar que não é dado nenhum “papel ativo” ao agente A. Se algo que lhe escapa à vontade e ao arbítrio foi a causa dele realizar a1, então ele parece mesmo ser uma “vítima” do que lhe sucedeu.
    A alternativa que Davidson propõe parece ser algo como o seguinte: algo conta como uma ação intencional ou livre se for causada por uma razão. Ou seja, A é livre ao realizar a1 se suas crenças e quereres são a causa de a1, independentemente de qual seja a causa dessas crenças e quereres.

    Referências
    Burge, T. “Book review: Essays on actions and events. Donald Davidson”. Ethics 93, 1983, pp. 608-611.
    Davidson, D. Essays on actions and events. Oxford: Clarendon Press, 2001, 2nd ed. [Ver em Amazon.com]
    Hahn, L. E. (ed.) The philosophy of Donald Davidson. The library of living philosophers. Chicago: Open Court, 1999.
    Heil, J. e Mele, A. (eds.) Mental causation. Oxford: Clarendon Press, 1993. [Ver em Amazon.com]
    Lepore, E. e McLaughlin, B. Actions and events: perspectives on the philosophy of Donald Davidson. Oxford: Brackwell, 1985.
    Vermazen, B. e Hintikka, M. (eds.) Essays on Davidson: actions and events. Oxford: Oxford University Press, 1985.

  • Estarei comentando aqui nos próximos dias as questões de filosofia da prova PS3 do Vestibular da UFSM – dezembro de 2011.

    Questão 19:

    Comentário: para descobrir a resposta correta desta questão basta compreender o texto que compõe o enunciado da questão.

    A alternativa I diz que o texto fala que o conteúdo moral de uma obra é uma questão objetiva. Isso é correto e está dito na terceira frase do texto: “Mas havia um modo de julgar objetivamente uma obra de arte: quanto ao seu conteúdo moral.” Portanto, I está correta.

    A alternativa II diz que, segundo o texto, o conteúdo estético de uma obra de arte não é uma questão subjetiva. Embora não seja dito com as mesmas palavras, está claro na primeira frase do texto que a avaliação do conteúdo estético é, sim, uma questão subjetiva: “o fato de gostarmos de uma obra de arte .. era uma questão exclusivamente subjetiva”. Portanto, II está errada.

    A alternativa III diz que, segundo o texto, o estado deve subvencionar a bebida. O texto não diz isso. Ele diz apenas que Tolstói achava absurdo justificar o subsídio a algo apenas pelo fato de proporcionar prazer a alguém. Se esse o prazer fosse o único valor da arte, diz o texto, o subsídio a ela não seria justificável (tanto quanto não é justificável subsidiar a bebida). Portanto, III está errada.

    Resposta correta: A (apenas I está correta de acordo com o texto).

    Questão 23:

    Comentário: esta questão exige uma compreensão correta do enunciado, e também um conhecimento específico sobre o imperativo categórico de Kant.

    O imperativo categórico tem como característica principal sua universalidade, e pode ser assim expresso: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza” (ver p. ex.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imperativo_categórico).

    O texto da questão fala da “injunção kantiana de universalizar nossos juízos morais”. Com base nisso, podemos inferir que se trata do imperativo categórico, e descartar como incorreta a alternativa I (que diz que não se trata do imperativo categórico).

    A alternativa II diz que, segundo o texto, as “preferências ‘estéticas’” podem ser a base de distinções morais. No texto foram dados como exemplos dessas preferências a raça, a cor do cabelo, altura etc. Mas o texto diz é que seria arbitrário fazer distinções morais com base nessas características que, por isso, são inadequadas para avaliações morais. Assim, II é incorreta.

    III diz que, segundo o texto, não é admissível fazer distinções morais com base na raça. Isso está correto: o texto diz que não devemos fazer distinções arbitrárias em questões morais, e que a raça é uma característica arbitrária, por não ter características morais associadas. Logo, não é admissível fazer distinções morais com base na raça.

    Sendo assim, apenas III está correta de acordo com o texto. Resposta correta: C.

    Questão 26:

    Comentário: a questão exige domínio da noção de ato de fala expressivo. Um ato de fala expressivo é aquele que não tem pretensão de verdade (não pretende descrever a realidade), mas apenas de expressar sentimentos ou emoções (ver, p. ex.: http://pt.wikipedia.org/wiki/Atos_da_fala). Assim, o texto da questão diz que Aristóteles via na tragédia a possibilidade da purificação das emoções, por nos “confrontar com elas […] ao assistirmos um drama”. A tragédia, assim, deve expressar essas emoções, e é aí que entramos em contato com elas sofrendo a purificação das nossas emoções.

    As concepções de Hsun Tzu e Schopenhauer, sugeridas pelo texto, dão à arte um papel diferente. Se elas nos revelam algum aspecto último da realidade, elas de algum modo teriam uma função descritiva. Atos de fala descritivos têm pretensão de verdade, de descrever as coisas tal como realmente são (ver novamente o texto da Wikipédia).

    Com base nisso, apenas a concepção dada por Aristóteles é preponderantemente expressiva. Portanto, a resposta correta é A.