Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

  • Resumo: neste texto (a) apresento de um modo bem superficial a, assim chamada, teoria da correspondência da verdade, (b) introduzo o problema epistemológico de como saber se nossas crenças ou pensamentos correspondem com a realidade, e (c) cito um trecho da Stanford Encyclopedia of Philosophy tratando do assunto de modo mais detalhado.

    Não é incomum, ao se falar em teorias da verdade, apresentar a teoria da correspondência em conexão com algum exemplo do tipo: nossos antepassados pensavam que a Terra era plana (ou o centro do Universo), mas nós, hoje, sabemos que isso é falso. Menciona-se, também, a figura de Aristóteles, que afirma que dizer a verdade é dizer do que é, que é; e do que não é, que não é (Metafísica, Livro IV). Com isso, a teoria da correspondência da verdade poderia ser apresentada assim: o que dizemos (ou pensamos) é verdadeiro se, e somente se, as coisas (ou o mundo) são como dizemos que são; ou, ainda, uma proposição (crença ou afirmação) é verdadeira se, e somente se, corresponde com a realidade (ou aos fatos). Citando Strawson,

    … um dos méritos do nome “correspondência” é mostrar que confrontando o juízo e a crença está o mundo natural ou a realidade, as coisas e os eventos com os quais os juízos e as crenças se relacionam, ou são acerca deles; e é como as coisas são no mundo natural, na realidade ou de fato, que determina se os nossos juízos ou crenças são verdadeiros ou falsos. (Análise e Metafísica, Cap. 4)

    Com a teoria da correspondência enunciada assim, podemos evitar uma postura relativista que diria que para nossos antepassados era verdade que a Terra é plana (ou o centro), mas, para nós, isso é falso. Deveríamos dizer, no lugar disso, que eles tinham boas razões para acreditar no que acreditavam, mas… estavam errados.

    Atentemos um pouco mais ao exemplo. O ponto que me fez escrever este texto é o seguinte. Podemos dizer que sabemos, hoje, que nossos antepassados estavam errados? Ou devemos dizer, meramente, que eles acreditavam em algo e nós, hoje, acreditamos no oposto? Bem, poder-se-ia dizer que, se é verdade que a Terra não é o centro do Universo, então o que temos hoje pode ser chamado de conhecimento. Mas podemos saber que sabemos (o que envolve saber se é verdadeiro isso em que acreditamos)?

    Talvez esse ponto fique mais claro apresentando-o da seguinte forma. Se acreditamos que a Terra é esférica, isso é verdade se a Terra é, de fato, esférica. A crença deve ajustar-se à realidade. Mas como podemos confirmar que uma crença corresponde com a realidade, seria possível comparar uma coisa com a outra? Uma tal comparação exigiria que tivéssemos acesso à realidade de um ponto de vista externo ao nosso, já que todas as nossas crenças são a partir do nosso ponto de vista. Não podemos saltar fora de nossos pensamentos, nem de nossa linguagem para confrontar as crenças ou sentenças que julgamos verdadeiras com a realidade. “A ideia de um tal confronto é absurda”, nos diz Davidson (Ver “A coherence Theory of Truth and Knowledge”).

    Para jogar algum esclarecimento nesse ponto (eu espero), traduzi um trecho de: David, Marian, “The Correspondence Theory of Truth”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2009 Edition), Edward N. Zalta (ed.), URL = <http://plato.stanford.edu/archives/fall2009/entries/truth-correspondence/>.

    Segue abaixo a tradução (as referências feitas ao longo do texto podem ser conferidas no link do original):

    Nenhum acesso independente à realidade


    A objeção que bem pode ter sido a mais efetiva em causar descontentamento com a teoria da correspondência está baseada numa abordagem (concern) epistemológica. Em poucas palavras, a objeção é que uma teoria correspondentista da verdade deve inevitavelmente conduzir a um ceticismo a respeito do mundo externo, porque a requerida correspondência entre nossos pensamentos e a realidade não é averiguável. Já desde o ataque de Berkeley à teoria representacional da mente, objeções deste tipo têm gozado de considerável popularidade. É tipicamente apontado que nós não podemos saltar fora de nossas mentes para comparar nossos pensamentos com a realidade independente-da-mente (mind-independent). Não obstante – assim continua a objeção – na teoria correpondentista da verdade, isso é precisamente o que teríamos que fazer para adquirir conhecimento. Nós teríamos que acessar a realidade como ela é em si mesma, independentemente de nossa cognição a seu respeito, e determinar se nossos pensamentos lhe correspondem. Uma vez que isso é impossível, já que todo o nosso acesso ao mundo é mediado por nossa cognição, a teoria correspondentista da verdade torna o conhecimento impossível (cf. Kant 1800, intro vii). Assumindo que o ceticismo resultante é inaceitável, a teoria da correspondência tem de ser rejeitada, e alguma outra abordagem da verdade, uma abordagem epistêmica (anti-realista) de algum tipo, tem que ser colocada em seu lugar (Cf., e.g., Blanshard 1941.)

    Este tipo de objeção traz uma série de questões epistemológicas, de filosofia da mente e de metafísica geral. Aqui só podemos aludir a alguns pontos pertinentes (cf. Searle 1995, chap. 7; David 2004, 6.7). A objeção faz uso da seguinte linha de raciocínio: “Se verdade é correspondência, então, já que conhecimento requer verdade, temos que saber que nossas crenças correspondem com a realidade, se queremos conhecer algo acerca da realidade”. Há duas suposições implícitas nesta linha de raciocínio, ambas discutíveis.

    (i) Assume-se que S sabe x somente se S sabe que x é verdadeiro – uma exigência não subscrita (underwritten) pelas definições padrão de conhecimento, que nos dizem que S sabe x somente se x é verdadeiro e S está justificado em crer x. A suposição pode repousar numa confusão entre os requisitos para saber x e os requisitos para saber que alguém sabe x.

    (ii) Assume-se que, se verdade = F, então S sabe que x é verdadeiro somente se S sabe que x tem F. Isso parece altamente implausível. Pelo mesmo padrão seguir-se-ia que ninguém que não sabe que água é H2O pode saber que o Nilo contém água – o que significaria, naturalmente, que até razoavelmente pouco tempo ninguém sabia que o Nilo continha água (e que, analogamente, até pouco tempo ninguém sabia que há estrelas no céu, baleias no oceano, ou que o sol produz luz).

    Além do mais, ainda se alguém sabe que água é H2O, sua estratégia para descobrir se o líquido em seu copo é água não tem que envolver análise química: ele poderia simplesmente prová-lo, ou perguntar a um informante confiável. De modo similar, tanto quanto diz respeito a saber que x é verdadeiro, parece que a teoria da correspondência não implica que temos que saber que uma crença corresponde a um fato para saber que ela é verdadeira, ou que nosso método de descobrir se uma crença é verdadeira tem que envolver uma estratégia de comparar efetivamente uma crença com um fato – embora a teoria certamente implique que obter conhecimento requer obter uma crença que corresponde a um fato.

    De modo mais geral, alguém poderia questionar se a objeção é muito profunda (has much bite), umas vez que as metáforas de “acessar” e “comparar” são enunciadas com mais atenção aos detalhes psicológicos de formação de crença e a questões epistemológicas concernentes às condições sob as quais crenças estão justificadas ou garantidas. Por exemplo, é muito obscuro como a metáfora de “comparar” aplica-se ao conhecimento obtido em crenças formadas perceptualmente (perceptual belief-formation). Poder-se-ia perguntar, também, se abordagens da verdade concorrentes de fato gozam de alguma vantagem significativa em relação à teoria da correspondência, uma vez que estão presas (held) ao padrões estabelecidos por este tipo de objeção.

    De qualquer forma, a objeção “Nenhum acesso independente à realidade” contra abordagens correspondentistas da verdade têm sido uma das, se não a, principal fonte de motivação para posturas idealistas e anti-realistas na filosofia (cf., e.g., Stove 1991). Apesar disso, a conexão entre teorias correspondentistas da verdade e o debate metafísico do realismo vs. anti-realismo (ou idealismo) parece menos direto do que frequentemente é assumido. Por outro lado, teóricos deflacionistas e da identidade podem ser, e tipicamente são, realistas metafísicos enquanto rejeitam a teoria da correspondência; e defensores de uma teoria da correspondência, por outro lado, poderiam ser idealistas metafísicos (e.g., McTaggart 1921) ou anti-realistas, sustentando que fatos são constituídos pela mente ou que quais fatos existem depende de algum modo de em que acreditamos ou somos capazes de acreditar.

  • “Atitudes Proposicionais e Racionalidade em Donald Davidson” é o título do trabalho que apresentarei sob a forma de “pôster” na 24ª Jornada Acadêmica Integrada da UFSM.

    Para algum interessado, o trabalho estará exposto a partir das 19hs de Quarta-Feira (11 de Novembro de 2009) na Antiga Reitoria. O número do painel é 91.

    —————–[Informação Posterior]:

    O trabalho do qual falei acima pode ser acessado aqui:
    Fischborn, M – Atitudes Proposicionais e Racionalidade em Donald Davidson.

  • ” […] Não é, entretanto, tão difícil como alguns têm pensado, dizer o que significa a tese determinista. Eu argumentei alhures que a causalidade ‘nos objetos’ (como oposta ao nosso conceito de causalidade) pode ser analisada em termos de complexas regularidades em conjunto com certos tipos de continuidade de curso e (para prover a direção da causalidade, a assimetria de causa e efeito) da noção de um único e fixo evento resultante de sua causa. Assim, a tese determinista é de que para cada evento há uma causa antecessora suficiente, isto é, um conjunto de acontecimentos e condições temporalmente anterior que é suficiente, de acordo com alguma regularidade, para apenas tal evento e que conduz a ele através de um processo qualitativamente contínuo.

    Esta tese seria falsificada se houvesse duas situações antecessoras que fossem semelhantes em todos os aspectos relevantes, mas que tivessem conseqüências diferentes. Nós fazemos progresso a seu respeito, confirmando-a, na medida em que encontramos o que parecem ser explicações causais satisfatórias de mais e mais tipos de acontecimentos. Esta é uma tese empírica, que apenas o progresso da ciência irá gradualmente confirmar ou talvez, mais dramaticamente, desmentir. Este ponto de vista problemático do determinismo pode ser defendido por um exame de alguns dos argumentos a priori ou do perfil geral de argumentos que têm sido desenvolvidos em cada lado.

    Tem sido dito que o determinismo é um pressuposto necessário à ciência; mas de modo errôneo: algumas teorias científicas, tais como a mecânica quântica, seguem adiante muito bem sem ele. A verdade apenas é que o determinismo com relação a classes específicas de fenômenos é frequentemente uma hipótese funcionando. Em qualquer caso, se a ciência pressupusesse determinismo, isto mais enfraqueceria do que reforçaria a tese, por tornar impossível para a ciência testá-la e também comprová-la. […]”

    (MACKIE, J.L. Ethics: Inventing Right and Wrong, London: Penguin Books, 1977, Cap 9, “Causal Determinism and Human Action”, trecho traduzido por mim – ver o livro em Amazon.com).

  • O que é filosofia? O texto de Jaimes Cornman e Keith Lehrer com link logo abaixo ajuda a dar uma visão geral acerca da filosofia e da atividade filosófica. Texto esclarecedor tanto para quem está tendo um primeiro contato com a área como para quem já tem experiência.

    Informações:

    Título: O que é filosofia?
    Autores: James Cornman e Keith Lehrer.
    Do Livro:
    Philosophical Problems and Arguments – An introduction, Second Edition, Macmillan Publishing:New York, 1974. Páginas: 7. Tradução: Marcelo Fischborn.

    [ACESSAR O TEXTO]

  • O texto do link abaixo traz algumas considerações importantes para aqueles que são ou serão professores de filosofia, principalmente no ensino médio.

    O texto está no blog.criticanarede.com e intitula-se “Como não começar”. Clique aqui e acesse-o.

  • O texto que reproduzo abaixo foi escrito pensando nas primeiras ou na primeira aula de filosofia para uma turma de ensino médio.

    A ideia seria compreender a ideia comum (que pode estar presente no dia-a-dia de muitos) de que filosofia cada um tem a sua. Poder-se-ia comparar este uso da palavra “filosofia” com “modo de pensar” ou “modo de viver”.

    Em contraposição a este sentido vulgar de “filosofia”, o texto abaixo busca apresentar o conceito “acadêmico” de filosofia. Busca-se caracterizar, ao menos minimamente, aquela atividade que foi exercida pelos filósofos, quer do passado, quer do presente. Segue o texto reproduzido integralmente:

    UM POUCO SOBRE A FILOSOFIA*

    O que fazem os filósofos? Com o que se ocupam? Que questões tentam responder e de que forma fazem isso? Neste texto tentar-se-á reunir algumas considerações que pretendem indicar uma direção para a resposta destas e outras perguntas. Algumas pistas já estão nas próprias perguntas e, na sequência, utilizaremos delas para que possamos ter uma noção geral razoável do que seja a Filosofia1. Deve-se salientar que não se pretende dar uma definição ou resposta definitiva para a questão, apenas destacar algumas características relevantes para o seu estudo.

    Uma maneira de tentar entender o que se faz em filosofia é olhar para a sua história e tentar ver o que de comum fizeram todos aqueles que foram considerados filósofos. A fim de poupar você de ler tudo o que eles escreveram, para só então tirar suas próprias conclusões, aqui vai uma ajuda. Todos eles se ocuparam com questões que, ao menos em sua época, não tinham uma solução fácil. Ainda assim, essas questões eram fundamentais e básicas, no sentido de que diziam respeito ao que, com necessidade de mais ou menos esforço, estava ao alcance da curiosidade de qualquer pessoa. Alguns exemplos: logo no início dessa atividade que chamamos filosofia, na Grécia antiga, os filósofos chamados pré-socráticos (ou filósofos da natureza) desenvolveram teorias sobre o que era a matéria. Essa era uma questão importante e recebeu diversas e diferentes respostas naquela época. Ainda na Grécia antiga, os filósofos perguntaram o que era o conhecimento, o que era a justiça e o bem. Pense na importância que estas noções deviam ter naquela época (e ainda têm!), pois foi lá que se originou a noção de democracia, o estudo da política, e também a ciência. Séculos mais tarde, na Idade Média, uma questão que ocupou muito os filósofos e teólogos foi o chamado “problema do mal”. Tentava-se responder como um Deus, que é todo bondoso e poderoso, poderia ter criado um mundo onde existe o mal. Imagine a importância destes e outros questionamentos numa época onde igreja e governo estavam fundidos! Tentaram-se várias respostas a estes e outros problemas ao longo da história da Filosofia.

    A pouco falamos no surgimento da ciência. Foi dito que ela surgiu na Grécia antiga. Devemos ressaltar que lá, no começo de tudo, qualquer investigação teórica era considerada filosofia. Portanto, filosofia e ciência inicialmente coincidiram. Se olharmos para a ciência hoje, podemos ver que alguns assuntos que pertenciam originariamente à filosofia, hoje são assunto da ciência. Um exemplo é a investigação sobre o que é a matéria, que já mencionamos. Hoje a física e a química investigam a matéria e não mais a filosofia. Vejamos o que temos até aqui: os filósofos tentam responder certas questões; os cientistas também fazem isso; o que podemos dizer do fato de que filósofos e cientistas às vezes investigam as mesmas questões? Como podemos diferenciar um do outro?

    Fiquemos com o exemplo de explicar o que é e como funciona a matéria. O trabalho científico que é feito hoje usa de métodos experimentais e tem uma teoria padrão (de que a matéria é composta por átomos e suas subpartículas). Através de experimenros e observação a teoria vai sendo implementada e corrigida. O que os filósofos que se ocuparam deste mesmo assunto fizeram era bem diferente. As teorias eram elaboradas e confrontadas umas com as outras através da argumentação. Aqui há um ponto de diferenciação: os cientistas fazem experimentos, mas os filósofos não. Embora os cientistas e qualquer pessoa sirvam-se da argumentação, para o filósofo esta ferramenta tem um papel central. Vemos assim que a filosofia é uma atividade conceitual, que se dá ao nível da linguagem. Pode-se também dizer que, como os problemas da filosofia são fundamentais, os conceitos investigados são também fundamentais.

    Podemos agora dizer que a filosofia se ocupou ao longo de sua história, e se ocupa hoje, daqueles problemas onde a ferramenta principal para teorizá-los é a argumentação. Em problemas filosóficos a observação dos fatos ou o desenvolvimento de experiências não são suficientes para se decidir uma questão. Também podemos ver que os problemas filosóficos não foram sempre os mesmos. Algumas questões que um dia foram assunto dos filósofos, hoje são assunto da ciência. E o avanço da ciência, por vezes, faz surgirem novas questões filosóficas. Entretanto, apesar dessa certa maleabilidade, há algumas questões que sempre estiveram no campo da filosofia, sugerindo assim que estas questões são genuinamente filosóficas. No restante deste texto apresentaremos exemplos de problemas de duas grandes áreas da filosofia e concluiremos com algumas observações sobre como se dá a investigação filosófica.

    Talvez o problema filosófico mais fundamental e abrangente diga respeito ao que é o conhecimento, como podemos chegar a ele e quais são os seus limites. A chamada definição clássica de conhecimento foi delineada já por Platão, que viveu entre 429 e 347 a.C2, como crença verdadeira e justificada. Dada esta definição muitos desafios se colocam à teoria do conhecimento: quando temos conhecimento e não mera crença? o que é uma boa justificativa para uma crença? o que é verdade ou que exigência uma crença deve atender para ser, de fato, verdadeira? Um cético pode levantar questões que coloquem em xeque aquilo que geralmente aceitamos como certo. Um exemplo? Em nossos sonhos temos sensações tão vivas que chegamos a suar, ficamos em pânico e com medo, como se fossem reais. O cético poderia perguntar: como você sabe que não está sonhando neste exato momento e que tudo que você acredita estar de fato ocorrendo, inclusive a leitura deste texto, não passa de um sonho? Já pensou em responder um pergunta dessas? Esse e outros desafios céticos, que colocam em dúvida nossas pretensões de saber, são tratados numa área da filosofia chamada epistemologia, ou teoria do conhecimento.

    Façamos algumas notas. Compare a abrangência de um problema filosófico com um problema científico. Um exemplo de problema científico poderia ser se nicotina causa câncer, ou ainda, como se pode combater o vírus da nova gripe. A pergunta pelo que é o conhecimento ou como podemos alcançá-lo é muito mais abrangente. Tanto o cientista, quanto as pessoas no dia-a-dia fazem descobertas, dizem que sabem que choveu ontem, que sabem que fumar é prejudicial à saúde; uma noção de conhecimento está implícita em todas estas situações.

    Um outro campo de extrema abrangência é a ética ou filosofia moral. Como justificamos nossas concepções sobre o que é certo e o que é errado? Por qual padrão de avaliação podemos dizer que uma ação é boa ou certa e outra errada ou má? o aborto é moralmente aceitável? Alguns filósofos propuseram que para dizer se uma ação é boa temos que avaliar as consequências desta ação, se ela traz felicidade e não traz dor para a humanidade. Este tipo de concepção da moral avalia as consequências, as finalidades, os resultados de uma ação. Uma posição diferente avaliaria as intenções do agente, para dizer se ele agiu bem ou não.

    Mais algumas notas. Vemos aqui, novamente, que o assunto é abrangente. No nosso dia-a-dia vemos nossas mães, avós e nós mesmos dizendo que uma certa pessoa agiu corretamente, que a outra pessoa é má, que fulano é muito bom e que aquele político fez o que não devia. Poucas vezes nos perguntamos como é que fazemos estas valorações; que critérios usamos. Note que neste assunto passamo perto dos limites da religião; vamos aproveitar e fazer algumas diferenciações.

    Religiões geralmente têm “receitas prontas” do que é certo ou errado e do que é o bem. Na filosofia estamos dispostos a enfrentar estas questões até as últimas consequências, queremos argumentos fortes para sustentar esta ou aquela posição. O que as religiões fazem (e que é um direito delas) é diferente da filosofia. Elas simplesmente aceitam que o que está num livro sagrado, ou foi dito por um grande sábio, é o certo e não se preocupam em pôr à prova estas concepções. Em filosofia, para fazer uma investigação rigorosa, muitas vezes precisamos dar uma pausa nas nossas concepções pessoais sobre uma dada questão e buscar o que, em última instância, sustenta ou pode fundamentar aquela posição. Numa dessas, podemos até chegar a uma conclusão diferente daquela que tínhamos por correta.

    Nos dirigindo ao fim deste texto, façamos uma breve recapitulação e síntese. Vimos que a filosofia tem alguns problemas próprios. Esses problemas não são necessariamente permanentes, alguns deles podem deixar de ser filosoficamente relevantes e outros novos podem surgir. Tentou-se também destacar ao longo do texto que a argumentação tem um papel muito importante. Que é através de argumentos que se tenta dar respostas às questões da filosofia. É também através deles que se busca refutar respostas já dadas. Vemos assim que a atividade filosófica se dá conceitualmente, isto é, ao nível da linguagem. Nas ciências se fazem experimentos, observam-se fatos. Em filosofia não fazemos isso.

    De tudo o que foi dito, podemos ainda destacar a importância de duas outras áreas da filosofia das quais nada falamos explicitamente até aqui. São elas a lógica e a filosofia da linguagem. Devemos encarar estas disciplinas como fornecedoras de instrumentos para uma investigação séria e cuidadosa dos problemas da filosofia. Obtemos com elas habilidades necessárias para uma investigação inteligente, mediante argumentos fortes.

    Finalizamos dizendo que a história da filosofia é resultado das tentativas de resolver as suas questões, e que muitas delas (ou uma versão reformulada), continuam abertas à investigação sem uma resposta definitiva. Isso se deve à complexidade daquelas questões com as quais a filosofia se ocupa.3

    *Texto escrito por Marcelo Fischborn (Santa Maria, Agosto de 2009).

    1Muito do que será dito neste texto será baseado no primeiro capítulo do livro Philosophical Problems and Arguments – An introduction (James W. Cornman e Keith Lehrer, Segunda Edição, Macmillan Publishing:New York, 1974).

    2 Datas segundo o Dicionário Oxford de Filosofia (Simon Blackburn, JZE:Rio de Janeiro, 1997).

    3Espera-se que este texto tenha contribuído para aumentar o entendimento do leitor sobre a atividade filosófica. Tentou-se falar um pouco sobre o objeto desta: os problemas filosóficos. Também se buscou salientar o papel da argumentação, como método de investigação desses problemas, e da história da filosofia como fruto dessa atividade.

  • Penso ter encontrado um pequeno problema de tradução no livro Da Alma de Aristóteles, tradução de Carlos Humberto Gomes, publicado pela Edições 70. No Livro II, o capítulo “As faculdades da alma” (pagina 57) começa assim:

    “Em relação àquelas faculdades por nós referidas, algumas criaturas animadas, como também já dissemos, 414 a 30. possuem umas todas elas enquanto que outras, apenas algumas, e finalmente outras ainda, unicamente uma. Estas capacidades, como aliás fizemos menção, são respectivamente as faculdades nutritiva, desiderativa, sensitiva, de locomoção e de pensamento. As plantas não possuem faculdade nutritiva, outros seres vivos, pelo contrário, 414 b 1. possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva e, em conjunto com ela, também a faculdade desiderativa, compreendendo o desejo necessariamente o apetite, a paixão e a vontade.”[1]

     O trecho sublinhado (onde julgo haver problema) contradiz o que, no mesmo capítulo, é dito mais adiante (sublinhado abaixo):

    “Na verdade, assim desprovida de faculdade nutritiva, a faculdade sensitiva nunca poderá ser concedida; mas, pelo contrário, pode encontrar-se a faculdade nutritiva sem faculdade sensitiva nas plantas.”[2]

    Vejamos como aparece o trecho que coloquei em questão em outras traduções. Tomás Calvo Martínez traduziu o mesmo trecho para o espanhol como segue:

    “En las plantas se da solamente la facultad nutritiva, mientras que en el resto de los vivientes se da no sólo ésta, sino también la sensitiva.”[3]

     Para o inglês, este mesmo trecho foi traduzido por J. A. Smith, assim:

     “Plants have none but the first, the nutritive, while another order of living things has this plus the sensory.”[4]

    Baseado nestas duas traduções e em que o trecho que acredito ter problema contradiz outro do mesmo livro, sugiro que o original: 

    “As plantas não possuem faculdade nutritiva, outros seres vivos, pelo contrário, 414 b 1. possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva …”

     seja lido como:

     “As plantas possuem apenas a faculdade nutritiva, enquanto outros seres vivos, pelo contrário, possuem de maneira diversa a faculdade sensitiva …”

     Bem, era isso. Ficarei grato se receber comentários, concordem comigo ou não.

     

     


    [1]    Aristóteles, Da Alma, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa:Edições 70, p57.

    [2]    Ibid. p59.

    [3]    Aristóteles, Acerca del Alma, trad. Tomás Calvo Martínez (p55 do arquivo abaixo). Disponível em: http://www.scribd.com/…/Aristoteles-Acerca-del-Alma

    [4]    Aristotle, De anima (On the soul) trad. J. A. Smith (p14 do arquivo abaixo). Disponível em: dominiopublico.gov.br/…/ps000011.pdf

  • (1) “É necessário acreditar para conseguir o que se quer”.

    Esta afirmação (ou alguma variante) é frequentemente feita no dia a dia das pessoas. Em muitos casos, ela pode ter por trás um fundo religioso. Apesar disso, o que vou apresentar aqui não se limita a um contexto específico, principalmente porque a noção de crença é muito geral e não se limita nem ao contexto religioso, nem a nenhum outro. O que vou tentar fazer neste texto é oferecer um modo de compreender esta afirmação. Para isto, vou esclarecer alguns conceitos que estão presentes na afirmação e depois tentarei relacionar com alguns aspectos da teoria que o filósofo Donald Davidson desenvolve em torno do tema da ação*. Já adianto que o que vou dizer é que a teoria de Davidson não só é compatível, como também reforça esta afirmação. Entretanto, para que isto ocorra, precisamos entender de uma forma correta os conceitos que estão envolvidos na afirmação, e algumas de suas “sutilezas” que, segundo penso, normalmente podem ficar mistificadas ou mal entendidas. Os conceitos-chaves serão: condição necessária, crença, ação.

    1. Condições Necessárias – “É necessário …”

    A nossa afirmação-cobaia começa afirmando que algo é necessário para que se consiga outro algo. Bem, o que significa dizer que algo é necessário? Esta é uma noção lógica que pode ser entendida assim: x é uma condição necessária para y, se y não pode acontecer (ou ser verdadeiro) sem que também aconteça (ou seja verdadeiro) x. Por exemplo, uma condição necessária para alguém ser um ser humano (y) é que seja um mamífero (x).

    Em nossa afirmação-cobaia é dito que “é necessário acreditar” para que alguém consiga o que quer. De acordo com o que falamos sobre condições necessárias, podemos reformular a afirmação com que começamos:

    (2) “Acreditar é uma condição necessária para conseguir o que se quer.”

    Note que é uma condição necessária, mas não se está dizendo que é suficiente. Como no caso dos mamíferos e seres humanos, é necessário ser um mamífero para ser um ser humano, mas não é suficiente: pois pode haver (e há) mamíferos que não sejam seres humanos (gatos, por exemplo). Assim, crer não garante que se consiga o que se quer, mas sem crer é impossível conseguir. A crença sozinha não é suficiente para se conseguir o que se quer; mas é necessária.

    2. Ação – “conseguir o que se quer”

    Como entender este “conseguir o que se quer”? Bem, penso que “conseguir o que se quer” pode ser entendido como “realizar uma ação”. Conseguir o que se quer está relacionado com atingir um fim pretendido, ou seja, fazer algo intencionalmente, e isto, ao menos em traços bem gerais, é o que caracteriza uma ação.

    Por exemplo, posso querer (ou ter a intenção) de comer uma maçã. “Conseguir o que se quer” aqui seria o mesmo que conseguir realizar a ação de comer a maçã. Quando temos uma ação, temos algo (ao menos sob algum aspecto) feito intencionalmente. Com estas últimas considerações podemos assim reformular a afirmação (2):

    (3) “Acreditar é uma condição necessária para uma ação”

    3. Crença – os meios para o o fim pretendido

    É comum dizer que a crença é uma atitude proposicional. Quando acreditamos, acreditamos numa proposição. Proposição (dando uma caracterização rápida) é uma “unidade” (ou quantidade) de informação que pode ser verdadeira ou falsa. Acreditamos, por exemplo, que está chovendo, que o Brasil é um país em desenvolvimento, que comer mata a fome, etc. Quando cremos numa proposição a tomamos por verdadeira. Isto, porém, não garante que a proposição seja verdadeira. Podemos, por exemplo, tomar por verdadeiro que está pegando fogo na casa do vizinho, por estar vendo uma grande quantidade de fumaça vindo do seu pátio e, na verdade, ele ter feito uma fogueira para queimar folhas secas.

    Mas o que a crença tem a ver com ação? É neste momento que “chamamos” Donald Davidson. Dissemos anteriormente que agir está relacionado com buscar um fim pretendido. Tenho, por exemplo, a intenção de matar minha fome. “Matar a fome” é, neste exemplo, o fim pretendido (é o que tenho intenção de conseguir). Bem, mas para que eu realize uma ação, ter esta intenção não basta. Qual é o outro elemento necessário? A crença. Eu teria, no exemplo em questão, que acreditar, ao menos, que um certo alimento que tenho disponível matará a minha fome. Para agir é necessário tanto a crença quanto o fim pretendido (vale ressaltar que não estou falando que estes dois elementos sejam juntos suficientes; esta seria outra questão). Quando alguém age, tem um fim pretendido (uma intenção) e uma crença (de que um certo modo de agir o fará atingir o fim pretendido). Penso que podemos dizer que a crença apresentaria o meio para atingir o fim desejado. No nosso exemplo: quero matar a fome (fim), e acredito que comer uma maçã (meio) faria-me atingir o fim. Assim, como nossa afirmação falava desde o começo, a crença é necessária para conseguir o que se quer. Ou, aprimorando nossa afirmação (3):

    (4) Crença é uma condição necessária para a ação.

    E, assim, finalizo este texto esperando ter, neste caminho de nossa afirmação original (1) até a afirmação mais elaborada (4), ter ampliado a compreensão do leitor sobre a necessidade da crença para a ação (ou para conseguir o que se quer).

    Observação:

    Um truque (artimanha ou equívoco, quem sabe) que eu talvez tenha feito pode ter sido passar da noção de “conseguir o que se quer” para a noção de “ação”. Alguém talvez possa conseguir o que quer sem uma crença do tipo que consideramos acima como necessária (alguém quer uma coca-cola e, de repente, outra pessoa aparece com uma sem avisar). Assim ela conseguiria o que quer sem ter tido uma crença necessária.

    Apesar disso, não diríamos nesse caso que ela agiu. Não foi uma ação sua conseguir a coca-cola. Justamente porque para algo ser uma ação precisa ter sido feito intencionalmente, e para isto, a crença é necessária. Assim, mesmo que o passo de “conseguir o que quer” para “realizar uma ação” não seja legitimo (ao menos sem algumas observações), uma vez dado, mostramos que, para haver ação, a crença é uma condição necessária.

    Aguardo comentários, críticas e sugestões ;)

    ——————————-

    (*) Donald Davidson foi um filósofo americano que viveu de 1917 até 2003. Baseio-me essencialmente nas ideias de Davidson presentes nos seguintes artigos:

    D. Davidson (1963), ‘Actions, Reasons and Causes’, Journal of Philosophy, 60.

    D. Davidson (2001), “Agency” in Essays on Actions and Events, Oxford: Clarendon Press, 2nd ed.

  • Inseri um link para o texto “A rede conceptual da acção”, de Antônio Paulo Costa, na página Sugestões para Leitura. O texto fala um pouco sobre o que é filosofia da ação. É um texto pequeno e introdutório para os que tiverem curiosidade de saber um pouquinho mais sobre esta área.

  • Donald Davidson, em seu artigo Actions, Reasons and Causes defende que o que ele chama de razão primária é a causa de uma ação. Ou melhor, explicar uma ação com base na razão primária do agente é um tipo de explicação causal como outra qualquer.

    Mas o que seria uma razão primária? Davidson diz que dar a razão primária pela qual um agente realiza uma ação é geralmente uma questão de nomear (a) uma pró-atitude em favor de um certo tipo de ação e (b) uma crença de que a ação praticada satisfaz esta pró-atitude. Como exemplos de pró-atitudes incluem-se desde desejos, vontades, passando noções de dever, até princípios estéticos e convenções sociais.

    Um exemplo do próprio Davidson (adaptado):

    Ação praticada: o agente liga a luz.

    Comportamento observável: o agente pressionando o botão para ligar a luz.

    Razão primária: (a) o agente quer ligar a luz e (b) acredita (sabe) que pressionando o botão conseguirá aquilo que quer.

    A tese principal de Davidson (se não estou cometendo nenhum equívoco) é que uma razão primária é a causa da ação (no exemplo a razão primária é a causa do apertar o botão e do consequente ligar a luz). É claro que nem todo par de pró-atitude e crença será uma razão primária. Davidson elabora algumas condições para razões primárias. Mas nisto pretendo falar em uma outra postagem. Meu objetivo com esta postagem foi mais o de atrair interessados no assunto. Gostaria de trocar ideias sobre alguns textos de Davidson com quem tiver interesse. Aguardo comentários.

    OBS: O artigo no qual estou apoiando-me é:

    Davidson, “Actions, Reasons and Causes”, Journal of Philosophy, 1963.