Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

  • Proposições
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    “A noção mais fundamental na lógica clássica é a noção de verdade. Os filósofos, é claro, há muito debatem a questão ‘o que é a verdade?’, mas esse é um debate que, para os propósitos deste livro, precisamos deixar de lado. Suponhamos que sabemos o que é a verdade.

    Importamo-nos com a verdade porque nos interessa aquilo que é verdadeiro, o que chamarei de ‘proposição’. Os filósofos, novamente, têm concepções diferentes sobre o que conta como uma proposição. Uma concepção simples diz que uma proposição é uma frase (declarativa), mas quando pensamos um pouco a respeito, há dificuldades óbvias nessa sugestão. Pois a mesma frase pode ser usada, por falantes diferentes ou em contextos diferentes, para dizer coisas diferentes, algumas verdadeiras e outras falsas. Por isso, pode-se preferir sustentar que não são as frases que são verdadeiras ou falsas, mas proferimentos particulares delas, isto é, proferimentos feitos por pessoas particulares, em momentos e lugares particulares, nesta ou naquela situação particular. Uma concepção mais tradicional, entretanto, diz que não são frases nem proferimentos delas que são verdadeiros, mas um tipo mais abstrato de entidade, que podemos caracterizar como o que é dito por alguém que profere a frase. Uma outra concepção, com uma história mais longa, diz que o que é expresso por alguém que profere uma frase não é uma entidade abstrata, mas uma entidade mental, por exemplo, um juízo ou, de modo mais geral, um pensamento. Novamente, precisamos deixar esse debate de lado. O que quer que se deva chamar, adequadamente, de verdadeiro, ou falso, é isso que chamaremos de proposição. Essa, pelo menos, é a posição oficial. Mas, na prática, falarei várias vezes de modo frouxo sobre frases verdadeiras ou falsas. Pois, o que quer que as proposições sejam, elas têm de estar fortemente associadas a frases, uma vez que é por meio de frases que expressamos tanto verdades quanto falsidades.”

    Texto extraído de Bostock, David (1997), Intermediate Logic. New York, Oxford University Press, pp. 3-4. Traduzido por Marcelo Fischborn para fins didáticos.

  • Na contramão da recende onda que tenta converter um assunto primariamente de saúde em uma mera disputa ideológica (mais uma vez polarizada), este artigo reúne algumas fontes de informação sobre o avanço da pandemia causada pelo coronavírus ao redor do mundo:

    • O Bing disponibilizou uma ferramenta que permite acompanhar o progresso de casos da doença e mortes no mundo, por países e também por estados. A ferramenta ajuda também a acompanhar o formato da curva do progresso da doença, bem como comparar esse progresso em diferentes locais.
      Link: bing.com/covid
    • O Observatório Covid-19 BR, criado por um grupo de pesquisadores de várias universidades do Brasil e do mundo, disponibilizou algumas ferramentas que também ajudam a acompanhar o progresso da doença, incluindo projeções para os próximos dias e dados sobre a velocidade com que a doença se propaga.
      Link: covid19br.github.io
    • Uma questão crucial neste momento são as maneiras que temos para mitigar os estragos a serem produzidos pela covid-19. Uma alternativa é tentar comparar as taxas de mortes (que variam em diferentes países) de modo a identificar os fatores que podem alterar a letalidade da doença. De especial interesse são os fatores que podem afetar o impacto da doença e que podem ser controlados por políticas públicas, como medidas de isolamento e a disponibilização de uma estrutura de saúde adequada. Este artigo no Deutsche Welle ajuda a entender o que faz as taxas de mortalidade relacionadas à covid-19 serem tão diferentes entre diferentes países.
      Artigo original: dw.com/en/coronavirus-why-are-the-death-rates-different/a-52941947
      Versão em português com tradução automática: translate.google.com/…

    Edição (7/4/2020): existe uma grande possibilidade de subnotificação de casos no Brasil e, por isso, o número apresentado nos links acima podem ser menores que o número real de casos.

  • A recente pandemia fez com que atividades de ensino no mundo todo tivessem que ser movidas subitamente para formatos não-presenciais. A nível internacional, professores de filosofia iniciaram discussões sobre como proceder. O propósito deste post é reunir alguns exemplos da atividade docente em filosofia que estão sendo adotados aqui no Brasil, com os objetivos de auxiliar na seleção dos melhores formatos para aqueles que ainda queiram considerar alternativas, divulgar os conteúdos que estão sendo produzidos e convidar aqueles que estejam cientes de mais exemplos a enviá-los para que a lista possa ser ampliada.

    Formato 1: Aulas por videoconferência com participação dos alunos

    Um dos formatos que se pode adotar é a realização de videoconferências em que o professor e os alunos podem interagir durante a aula. Esse formato pode ser combinado com a gravação e disponibilização da videoconferência para consulta posterior, permitindo a consulta posterior do material (seja para revisão ou porque o aluno não estava conectado no momento agendado). Uma característica deste formato é que a aula ganha uma certa imprevisibilidade, assim como na sala de aula, que deriva das participações dos alunos.

    O professor Rogério Severo (da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) vem adotando este formato. Os vídeos estão disponíveis em seu canal no YouTube. Exemplos de aulas neste formato são as aulas do Seminário de Filosofia das Ciências Naturais (Graduação) e o curso sobre Perspectivas e Conflitos de Perspectivas (Pós-Graduação).

    Exemplo:

    Formato 2: Aulas previamente gravadas pelo professor

    Um outro formato são aulas gravadas offline pelo professor e depois disponibilizadas para os alunos. Uma característica deste formato é que o professor tem mais controle sobre o que será incluído na gravação, sendo que a edição prévia da gravação também é uma possibilidade. A aula também pode ser acompanhada pela projeção de slides. Os professores Jonadas Techio (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e Flavio Williges (Universidade Federal de Santa Maria) usaram recentemente este formato. O primeiro disponibilizou uma aula sobre Ontologia da Fotografia e do Cinema e o segundo sobre Filosofia das Emoções.

    Formato 3: Atividades de leitura e realização de exercícios

    As atividades acima mencionadas estão sendo utilizadas no ensino superior. Trabalhando no ensino médio (modalidade técnico integrado), tenho tentado encontrar um formato que permita lidar com algumas peculiaridades: um número maior de alunos e cursos simultâneos (por exemplo, no momento tenho 13 turmas) e condições variadas de acesso à internet (alguns alunos acessam apenas via celular, outros têm limitações no plano de internet, de modo que vídeos são pesados de mais). O formato que tenho adotado no momento é a formulação de atividades a serem respondidas em testes no Google Formulários. Em um exemplo de atividade deste tipo sobre teorias deontológicas em ética, os alunos devem responder questões sobre uma leitura definida (neste caso disponibilizada junto ao próprio questionário) e recebem um áudio de apoio. Este formato permite que o aluno receba um feedback automático ao final da atividade, exige que o aluno tenha se engajado ativamente com o conteúdo e permite que a atividade seja realizada em horários diferentes. Uma segunda alternativa é combinação de uma página com conteúdos e testes (ver um exemplo em elaboração para lógica proposicional).

    Espero que esta breve lista de exemplos e possibilidades possa ser útil. Comentários com sugestões de mais formatos e exemplos são muito bem-vindos e serão adicionados à postagem original.

  • Um dia desses, uma aluna me perguntou por que a disciplina de filosofia era importante. Ela queria saber, aparentemente por curiosidade genuína, por que era bom que ela e seus colegas estudassem filosofia no contexto de sua formação técnica integrada ao ensino médio.

    Foto do Instituto Federal Farroupilha, Campus Avançado Uruguaiana
    Instituto Federal Farroupilha, Campus Avançado Uruguaiana (fonte da foto)

    Tendo estudado filosofia por mais de dez anos, esta é uma pergunta que sempre me foi cara—o que não quer dizer que eu tinha uma resposta pronta para oferecer. Para a sorte, minha e de meus alunos, estávamos estudando a ética de Aristóteles e a resposta que ofereci ainda me agrada: se não por outras razões, a filosofia é importante porque é o único espaço curricular dedicado a pensar sobre certos temas. Esses temas especiais incluem, por exemplo, o próprio valor das coisas. Assim, a filosofia é importante porque é apenas na disciplina de filosofia que o aluno poderá pensar de modo aprofundado sobre o que torna algo importante ou valioso, sobre o que torna a vida humana valiosa, sobre o valor das instituições e assim por diante.

    Em seu livro Ética a Nicômaco, Aristóteles busca dizer o que é o bem maior para a vida humana (algo que ele chama de sumo bem). Para chegar até esse conceito, Aristóteles primeiro diz que, quando buscamos alcançar algum objetivo com uma ação, esse objetivo tem um valor superior ao da ação. Em outras palavras, as ações que empreendemos como meios para alcançar algum objetivo têm o seu valor derivado do valor do próprio objetivo. Aristóteles pergunta se haveria algum objetivo supremo, algo que é almejado por tudo aquilo que fazemos na nossa vida e que não é um meio para nada mais. Esse objetivo máximo é o sumo bem e Aristóteles entende que cabe a uma ciência especial buscar conhecê-lo. Essa ciência especial é o que hoje chamamos de ética, algo que Aristóteles chamava de ciência política, a qual faz parte da filosofia.

    Em minhas aulas de filosofia, os alunos podem pensar sobre esse tema e sobre muitos outros. Eles também são convidados a cultivar o pensamento, a leitura e a escrita minuciosos. Abaixo, seguem algumas das passagens de Aristóteles que lemos para pensar sobre o sumo bem:

    “Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas.

    Ora, como são muitas as ações, artes e ciências, muitos são também os seus fins: o fim da arte médica é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia é a vitória e o da economia é a riqueza. Mas quando tais artes se subordinam a uma única faculdade — assim como a selaria e as outras artes que se ocupam com os aprestos dos cavalos se incluem na arte da equitação, e esta, juntamente com todas as ações militares, na estratégia, há outras artes que também se incluem em terceiras —, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ser preferidos a todos os fins subordinados, porque estes últimos são procurados a bem dos primeiros. Não faz diferença que os fins das ações sejam as próprias atividades ou algo distinto destas, como ocorre com as ciências que acabamos de mencionar.”

    “Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem.

    Mas não terá o seu conhecimento, porventura, grande influência sobre a nossa vida? Semelhantes a arqueiros que têm um alvo certo para a sua pontaria, não alcançaremos mais facilmente aquilo que nos cumpre alcançar? Se assim é, esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. Com efeito, ainda que tal fim seja o mesmo tanto para o indivíduo como para o Estado, o deste último parece ser algo maior e mais completo, quer a atingir, quer a preservar. Embora valha bem a pena atingir esse fim para um indivíduo só, é mais belo e mais divino alcançá-lo para uma nação ou para as cidades-Estados. Tais são, por conseguinte, os fins visados pela nossa investigação, pois que isso pertence à ciência política numa das acepções do termo.”

    Os fragmentos acima foram extraídos das seções I e II do primeiro livro da Ética a Nicômaco, de Aristóteles. O livro foi traduzido para o português por Leonel Vallandro e Gerd Bornheim e está disponível na íntegra aqui.

    • O ministro da economia, Abraham Weintraub, anunciou em vídeo no Facebook, a disposição do governo para reduzir o investimento público em cursos superiores de filosofia e sociologia. Como argumento, o ministro afirmou que essas áreas do conhecimento não geram retorno para a sociedade, que as escolas de ensino médio deveriam priorizar o ensino de português, matemática e de profissões, e que o ensino superior deveria priorizar áreas como engenharias e medicina.
    • Em resposta, Sabine Righetti e Nina Ranieri argumentam, na Folha, que a proposta é equivocada e fere a autonomia garantida por lei às universidades públicas. Argumentaram também que áreas das ciências sociais e humanas têm contribuições importantes a oferecer à sociedade brasileira no tocante a problemas sociais graves, como a violência contra as mulheres.
    • A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia também repudiou a proposta.
    • Ronai Rocha lembrou que não é a primeira vez que as duas disciplinas aparecem na mira de figuras políticas importantes.
    • A título de recordação, novamente na contramão das afirmações do ministro, a NASA (Agência Espacial Norte-Americana) decidiu, no ano passado, financiar um projeto de pesquisa, coordenado por filósofos, destinado a entender e promover a segurança na engenharia espacial.
    • E uma pesquisa realizada na Inglaterra em 2016 sugeriu que crianças que tiveram aulas de filosofia melhoraram seu desempenho em matemática e linguagens.
  • Logo Wikipédia
    Logotipo da Wikipédia.

    Eis uma maneira divertida de chegar (na maioria das vezes) ao verbete sobre filosofia na Wikipédia:

    1. Abra uma página aleatória
    2. Clique no primeiro link que não estiver entre parênteses ou em itálico
    3. Repita o passo 2 até chegar no verbete sobre filosofia

    O fenômeno é descrito no verbete Wikipédia:Chegar à filosofia, que acabei de criar traduzindo o verbete correspondente da Wikipédia em inglês. Por azar do destino, o verbete recém criado não leva à filosofia por cair em ligações circulares entre os verbetes sobre Dados e Informação.

  • Esta postagem destina-se a alunos de pós-graduação (ou que estejam se preparando para entrar na pós-graduação) que queiram ter uma iniciação à pesquisa contemporânea sobre o livre-arbítrio e a responsabilidade moral. Estes são temas clássicos na história da filosofia e que continuam atraindo o interesse de pesquisadores contemporaneamente.

    Livros
    Foto de Sharon McCutcheon no Unsplash

    O objetivo das sugestões de recursos bibliográficos e audiovisuais abaixo é proporcionar uma introdução avançada e direta às principais discussões atuais sobre esses temas. Tratam-se, em linhas gerais, de três discussões: uma primeira discussão mais clássica, focada principalmente na questão sobre a relação entre livre-arbítrio e determinismo; uma segunda discussão focada no impacto de resultados empíricos para questões sobre a natureza e existência do livre-arbítrio; e uma terceira discussão sobre a natureza da responsabilidade moral e sobre se há tipos ou variedades de responsabilidade moral. (Para recursos em português sobre o assunto, acessar as seções sobre livre-arbítrio ou responsabilidade aqui no blog, ou a seção de metafísica na Crítica na Rede).

    Fischer, John Martin, Robert Kane, Derk Pereboom, e Manuel Vargas, orgs. Four views on free will. Malden: Wiley-Blackwell, 2007.

    Este livro oferece uma introdução sofisticada ao tema do livre-arbítrio, abordando principalmente as questões sobre se o livre-arbítrio existe e sobre se sua existência é compatível com a tese do determinismo. O livro conta com capítulos escritos por quatro autores destacados na discussão contemporânea sobre o assunto, nos quais apresentam suas visões sobre o tema. Adicionalmente, o livro inclui capítulos de discussão entre os autores, nos quais respondem a objeções a suas posições formuladas pelos demais autores.

    O livro está disponível em lojas como Amazon, Book Depository e também na Library Genesis. Há uma tradução para o espanhol disponível no Book Depository e outras lojas.

    Mele, Alfred R., org. Surrounding free will: Philosophy, Psychology, Neuroscience. New York: Oxford University Press, 2015.

    Este livro situa-se na intersecção entre a filosofia e a ciência do livre-arbítrio e reúne capítulos escritos por vários pesquisadores que se dedicam atualmente ao assunto. Os capítulos abordam, entre outros temas, estudos em psicologia e neurociência sobre o livre-arítrio. O livro resulta do mesmo projeto de pesquisa que motivou o documentário Closer to truth — Big questions in free will, listado mais abaixo.

    Disponível na Amazon, no Book Depository, na Library Genesis, entre outros.

    Randolph Clarke, Michael McKenna e Angela Smith (orgs.), The nature of moral responsibility. New York: Oxford University Press, 2015.

    Discussões sobre o livre-arbítrio estão geralmente conectadas a discussões sobre a responsabilidade moral—o livre-arbítrio é comumente definido como um tipo de controle sobre as próprias ações sem o qual um agente não pode ser moralmente responsável por elas. Para dizer o que o livre-arbítrio é, portanto, parece que precisamos dizer o que é a responsabilidade moral. O livro editado por Clarke, Mackenna e Smith trata diretamente da natureza da responsabilidade moral. Trata, em particular, de uma questão que tem ganhado espaço recentemente, a saber, se há tipos diferentes de responsabilidade moral. Essa questão é relevante pois abre a possibilidade de que o livre-arbítrio não seja uma condição necessária para toda forma de responsabilidade, ou mesmo para que haja diferentes tipos de liberdade conectados a diferentes tipos de responsabilidade.

    Disponível na Amazon, no Book Depository, na Library Genesis, entre outros.

    Alguns verbetes relevantes na Stanford Encyclopedia of Philosophy

    Recursos audiovisuais

    Este documentário reúne entrevistas com pesquisadores vinculados a um projeto interdisciplinar sobre livre-arbítrio:

    Esta lista de vídeos inclui um curso com aulas minstradas por John Martin Fischer durante uma escola de verão ocorrida em Moscou, Rússia em 2014:

    Entrevista com Derk Pereboom, um cético sobre a existência do livre-arbítrio e da responsabilidade moral:

  • jonathan-daniels-373306-unsplash

    Em breve estarão abertas as inscrições para vagas em cursos superiores de todo o país através do Sisu/Enem. Escolher um curso de graduação nem sempre é fácil, mas ter acesso a informação de qualidade sobre as opções consideradas é algo que pode ajudar na decisão. Esta postagem busca oferecer uma descrição minimamente detalhada e realista de como é um curso de graduação em filosofia de modo a ajudar na decisão daqueles que consideram a possibilidade de dedicar alguns anos de sua vida a essa área do conhecimento. Os links, ao longo do texto, apontam para recursos introdutórios, em forma de texto ou vídeo, sobre os temas descritos.

    Conteúdos

    Os cursos de graduação em filosofia em universidades brasileiras podem variar um pouco em sua estrutura e ênfase, mas alguns conteúdos são universais. Eis alguns exemplos:

    História da filosofia: os conteúdos históricos geralmente são divididos em várias disciplinas que se distribuem, em ordem cronológica, ao longo dos semestres da graduação. Tratam-se de cursos de filosofia antiga (os autores principais são os pré-socráticos, Sócrates, Platão e Aristóteles), filosofia medieval (Santo Agostinho, Tomás de Aquino, John Duns Scotus e Guilherme de Ockham), filosofia moderna (Descartes, Hobbes, Locke, Leibniz, Hume, Kant, Hegel) e filosofia contemporânea (Husserl, Wittgenstein, Heidegger, Frege, Quine, Sartre, Rawls)—a lista não é, obviamente, exaustiva.

    Temas: além das disciplinas orientadas por períodos da filosofia, há também uma porção de disciplinas (onde se poderá estudar autores das mais variadas épocas) que se orientam por temas: metafísica (temas como natureza do ser, da realidade, verdade, causalidade), ética (valores, o certo e o errado, a objetividade dos valores, a vida boa), epistemologia (natureza e fontes do conhecimento e os empecilhos para o conhecimento), filosofia política (natureza da justiça, legitimidade dos governos e estados), lógica (argumentos, regras do raciocínio, inferências), estética (natureza da beleza), filosofia da ciência (natureza da ciência e do conhecimento científico, ciência vs. pseudociência). Novamente, não é uma lista exaustiva.

    Discplinas relativas à modalidade do curso: há duas modalidade de graduação em filosofia: licenciatura e bacharelado. Em cursos de licenciatura, o formado estará habilitado a dar aulas no ensino médio. Para tanto, terá disciplinas direcionadas especificamente à formação docente (didática, legislação e história da educação, psicologia da educação, estágio). No caso do bacharelado, essas disciplinas estão ausentes e pode haver uma ênfase em aspectos da pesquisa em filosofia (projetos, escrita de artigos, entre outros).

    Disciplinas optativas: além das disciplinas obrigatórias, os cursos de filosofia costumam reservar uma parte da formação para disciplinas da escolha dos alunos. Assim, alguém que tiver mais interesse por metafísica ou ética, por exemplo, poderá cursar mais disciplinas nessas áreas, além das obrigatórias. O aluno também poderá optar por estudar uma ou mais línguas estrangeiras e disciplinas relevantes em outros cursos.

    Habilidades

    Além dos conteúdos, especificamente, um estudante de filosofia também pode esperar adquirir e desenvolver certas habilidades. Uma grande parte dessas habilidades diz respeito ao uso preciso da linguagem: leitura fiel de textos, reconstrução do conteúdo desses textos, escrita precisa, apresentação oral de conteúdos. Um grupo relacionado de habilidades a serem treinadas envolve a argumentação: reconhecimento e reconstrução de argumentos, avaliação crítica de argumentos, detecção de procedimentos argumentativos legítimos e ilegítimos, produção de argumentos e contra-argumentos.

    Considero ainda que uma outra habilidade envolvida no estudo da filosofia é a abertura. Por “abertura” me refiro à capacidade de considerar hipóteses e possibilidades que possam ser muito diferentes daquelas que consideramos usualmente: por exemplo, um estudante de filosofia pode precisar pensar sobre se uma pessoa que tivesse se originado de um zigoto planejado por uma divindade superpoderosa para se comportar de maneiras específicas poderia ainda ser livre e responsável por suas ações ou se zumbis são conceitualmente possíveis. Esses e outros experimentos de pensamento podem parecer bizarros, mas frequentemente desempenham um papel relevante no exercício filosófico.

    Atuação profissional e empregabilidade

    Não há tradição no Brasil de monitorar sistematicamente a empregabilidade dos egressos dos cursos universitários em geral. Com base em minha experiência pessoal (que é obviamente limitada), noto que a maior parte dos egressos de cursos de filosofia atua como professor. Nesse setor, as opções são escolas públicas (municipais, estaduais ou federais) ou privadas. No caso das escolas públicas, a remuneração varia bastante de um estado para outro. Os salários costumam ser mais altos em instituições federais, mas atualmente é difícil ser aprovado em um concurso público sem ter concluído um curso de mestrado e/ou doutorado. Vale também levar em conta que a obrigatoriedade da disciplina está em discussão desde as últimas propostas de reestruturação do ensino médio.

    Para quem tem bacharelado ou licenciatura em filosofia, uma opção geralmente atrativa é realizar mestrado e doutorado. Esses cursos aumentam as chances de ser aprovado em concursos para a educação básica e também abrem a possibilidade de atuação no ensino superior, público ou privado. Estudantes que optam por essa carreira podem concorrer a bolsas de estudos, com as quais recebem remuneração mensal durante os cursos de mestrado (dois anos) e doutorado (quatro anos).

    Embora não haja carreiras muito bem definidas para formados em filosofia fora do âmbito da docência, vale também notar que algumas pessoas com formação em filosofia atuam ou atuaram em instituições privadas ou junto ao governo.

    Conclusão

    Acredito que filósofas e filósofos competentes tenham um papel importante a desempenhar na sociedade, na educação e na ciência. Para que possam cumprir esse papel, no entanto, é importante que entrem na profissão com informações adequadas sobre aquilo que irão encontrar, incluindo os desafios. Essa postagem foi uma tentativa de tornar um pouco da informação relevante disponível. Fique à vontade para comentar com questões ou informações complementares. E, se decidir que a filosofia é o seu lugar, bem-vindo(a) e boa sorte!

  • Em 16 de janeiro de 2009, fiz a primeira publicação neste blog. Iniciado como um bloco de notas sobre leituras do início da graduação, o blog registrou também preocupações sobre o ensino de filosofia, sobre filosofia da ação e da mente, e sobre pesquisa em filosofia, livre-arbítrio e responsabilidade moral (sendo os últimos os temas que mais me ocupam atualmente). O que há para ser dito sobre esses dez anos?

    Ballons
    Foto de Adi Goldstein no Unsplash

    Alguns números

    Estas foram as postagem mais visualizadas no último ano (número de visualizações entre parênteses):

    1. O que é a responsabilidade moral? (6.111)
    2. O homem e a natureza (4.341)
    3. O conetivo “se-então” – condicional material (4.237)
    4. Descartes: da dúvida à certeza (1.904)
    5. O que é uma contradição? (1.407)
    6. Realismo vs. antirrealismo (957)
    7. Cara ou coroa e o princípio de não-contradição (932)
    8. O problema do livre-arbítrio e do determinismo (875)
    9. Platão sobre as cores e a filosofia (848)
    10. Como escrever um artigo de filosofia (801)

    Ao total, o blog recebeu cerca de 46 mil visualizações em 2018. Em 2009, ano de sua criação, foram 1.3 mil visualizações. Ao longo dos dez anos, o blog somou mais de 220 mil visualizações. O blog tem ainda, neste momento, 583 seguidores (divididos entre os que seguem por e-mail, pelo WordPress e pelo Facebook).

    Visualizações 2018

    Os números acima sugerem que este blog teve um alcance não desprezível. Certamente, um alcance não tão grande quanto um canal famoso no Youtube pode ter nos dias de hoje, mas ainda assim um alcance maior do que, por exemplo, trabalhos acadêmicos mais tradicionais (como livros e artigos em revistas especializadas) costumam ter. Como também se pode esperar, tópicos de interesse mais geral (como aqueles presentes no ensino médio ou mesmo de interesse popular) são mais acessados do que temas de interesse mais restrito (questões sobre a pesquisa em filosofia, por exemplo).

    My hopes

    Ao longo de minha trajetória na filosofia, acompanhei vários blogs—os blogs dos professores Ronai Rocha (e também seu Didática da Filosofia), Adonai Sant’Anna e, mais recentemente, o Philosophers’ Cocoon, de Marcus Arvan, o Get a Life, PhD, de Tanya Golash-Boza, o Daily Nous, de Justin Weinberg, e o blog de Daniel Lemire, para dar apenas alguns exemplos. Cada um à sua maneira, esses blogs alimentaram minha curiosidade e interesse pela filosofia (ou pela pesquisa, de modo mais geral) e ajudaram a entender práticas, valores, preocupações e problemas que ocupavam os seus autores ou a comunidade acadêmica. Torço para este blog também possa ter sido em alguma medida útil, inquietante e inspirador para os que aqui pararam para uma leitura, e agradeço pela confiança depositada!

  • Google Trends

    Aproxima-se aquela época do ano em que o interesse na filosofia diminui e o interesse no espumante aumenta—ou pelo menos é o que sugere o Google Trends (a propósito, esta ferramenta pode ter algum interesse não-humorístico). Eis então alguns links filosóficos para finalizar o ano de 2018:

    • Há um novo blog sobre filosofia experimental, o New X-Phi Blog.
    • Uma postagem no blog Daily Nous trata da efetividade de cursos de filosofia em ensinar habilidades de pensamento crítico: “Um método que agora tem indícios empíricos contando a seu favor é a visualização de argumentos. Um novo estudo publicado na revista de educação da Nature, Science of Learning, conclui que fazer com que os alunos aprendessem a mapear argumentos ‘levou a grandes melhorias generalizadas nas habilidades de raciocínio analítico dos estudantes’ e em sua capacidade de escrever textos envolvendo argumentos.”
    • É comum pensar que apenas os seres humanos são capazes, através de sua linguagem, de referirem-se a coisas ou eventos que não estejam presentes. Há agora indícios de que orangotangos também tenham essa capacidade: mães selvagens que perceberam um predador “suprimiram seus avisos de alerta para os demais até que a ameaça não estivesse mais lá”.
    • Há um dossier sobre filosofia e ciências cognitivas da religião editado por José Porcher e Daniel de Luca-Noronha no último número da revista Filosofia Unisinos.
    • Há um número especial sobre agência e racionalidade editado por Sergio Tenenbaum e David Horst na revista Manuscrito.
    • Fazer a pergunta certa vs. dar a resposta certa? Post interessante de Daniel Lemire.

    Algumas novidades na Stanford Encyclopedia of Philosophy:

    Boas festas e até o ano que vem!