Seguindo o plano de postar mensalmente reflexões sobre o período de doutorado sanduíche, eis um comentário sobre o que me pareceu mais destacado no primeiro mês.
1. Argumentos tomam a cena
Estou assistindo a duas disciplinas, uma na graduação e outra na pós-graduação. Com base nesta pequena amostra, um primeiro aspecto que me chamou a atenção foi a centralidade dos argumentos. Os argumentos estão no centro da cena, sendo que muitos têm um nome próprio. De modo um tanto caricatural, a aula consiste basicamente na apresentação de um argumento, seguida da avaliação/discussão do mesmo. Ao final da aula, ou você achou um problema no argumento ou vai embora com o dever racional de aceitar sua conclusão.
2. Posicionamento/discussão
Juntamente com o aspecto anterior, a passividade não é nenhum pouco incentivada. Ao longo da aula, costuma-se questionar os alunos e chamá-los a posicionarem-se sobre os argumentos estudados. ‘Voçê concorda que p? Não? Por quê?’. Ao longo dessas discussões, abre-se espaço para introduzir outros argumentos disponíveis na literatura, que favorecem ou se opõem ao argumento principal sob consideração ou aos argumentos sugeridos pelos alunos.
Não afirmo que essas duas características não estejam presentes em muitas aulas de filosofia no Brasil. Elas são, sim, parte do que fazemos. Mas o que me chamou a atenção foi o grau de seriedade com que são tomadas nos cursos que estou assistindo. O professor/a não ficará meia hora apenas ele/a falando. E, quando se trata de avaliar um argumento ou tese, não adianta dizer que o filósofo A ou B diz o contrário ou concorda. O que importa primariamente é se as premissas são verdadeiras e se o argumento é válido. O resto está em segundo plano.
Do mesmo modo, não se pressupõe que avaliar ou discutir argumentos seja uma tarefa posterior a outras (por exemplo, posterior a compreender minuciosamente o que o autor X disse). Aprende-se o que o autor X disse ao mesmo tempo em que se aprende a avaliar o que o autor X disse. As duas habilidades são desenvolvidas lado a lado.
Acho que essas notas expressam o que mais me chamou atenção no primeiro mês. Pretendo mencionar aspectos mais específicos da organização acadêmica nas próximas postagens, alguns dos quais são derivados dessas duas observações iniciais. Como na postagem anterior, fico à disposição para responder perguntas que possam surgir.
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