A pandemia de covid-19 abala o mundo neste momento e apresenta uma ameaça à saúde e à vida. O desafio de enfrentar a pandemia recai de maneira mais pesada sobre profissionais da saúde e governos. Mas há uma questão central sobre essa situação que não é propriamente científica e que tem uma dimensão filosófica: Em que consiste uma boa resposta à pandemia? Com base em que aspectos podemos dizer se uma cidade, um estado ou um país respondeu bem à pandemia (ou melhor do que outros)?
Como é comum com perguntas filosóficas, essas perguntas não podem ser diretamente respondidas a partir da investigação empírica ou da observação dos fatos. E, como também é comum com perguntas filosóficas, todos nós temos opiniões (ainda que raramente articuladas ou verbalizadas) sobre como respondê-las e uma direção geral da resposta pode até ter um ar de trivialidade: responder bem à pandemia tem de envolver minimizar o número de mortes que ela produzirá. Essa intuição genérica não vem da observação dos fatos, mas dos nossos valores. E ela aponta na direção correta. A seguir, busco articular esse núcleo quase evidente sobre o que é uma boa resposta à pandemia, esboçar alguns complicadores possíveis e indicar a relevância dessa reflexão para o que é mais urgente neste momento: as medidas que são efetivamente adotadas para alcançar o melhor.
Um dos aspectos mais visados sobre a pandemia é número absoluto de mortes e casos em diferentes regiões. Neste momento, o Brasil tem em torno de 7 mil mortes por covid-19, os Estados Unidos têm quase 70 mil mortes e o mundo como um todo já conta com mais de 250 mil mortes. Mas o número absoluto de mortes não permite avaliar quão bem uma região está respondendo à pandemia. Diferentes regiões têm populações de diferentes tamanhos. Assim, é esperável que haja mais mortes em um país com 200 milhões de habitantes do que, por exemplo, em um país com 20 milhões de habitantes. Uma alternativa, então, é considerar a taxa de mortes por número total de habitantes, por exemplo, o número total de mortes por milhão de habitantes. (Note-se que essa taxa difere da taxa de mortos por número de infectados ou casos confirmados, que são mais sensíveis a variações em função do número de testes realizados, por exemplo).

A taxa de mortes por milhões de habitantes (talvez com algumas qualificações) me parece o aspecto mais importante para avaliar, comparativamente, quão bem uma região respondeu à pandemia. No entanto, ela não é tão útil agora. Quando chegarmos em 2022, por exemplo, talvez queiramos comparar como diferentes países ou estados responderam à pandemia e olharemos para o número de mortes por milhões de habitantes em cada um deles. Mas essa comparação não pode ser feita agora, pois o início dos contágios se deu em momentos diferentes em diferentes regiões e, por isso, algumas regiões terão taxas mais altas do que outras simplesmente porque já estão em um estágio mais avançado da propagação da doença. Para contornar mais esta dificuldade, uma alternativa é comparar as taxas de mortes por milhão de habitantes a partir de um determinado estágio da propagação da doença (por exemplo, a data da primeira morte ou do primeiro caso confirmado). Esse, então, parece ser um indicador crucial para avaliarmos o momento presente.

Alguns complicadores. Um refinamento adicional que a taxa de mortes por milhão de habitantes, ajustada por estágio da doença, pode precisar deriva do fato de que a covid-19 tem severidade diferente em diferentes setores da população. Um dos fatos mais considerados é que a fatalidade é muito mais provável em idosos do que em jovens. Como consequência, um país com uma proporção de idosos maior do que outro pode ter respondido melhor à pandemia ainda que ambos tenham, ao final dela, taxas similares de mortes por milhão de habitantes.

Além da taxa de mortes, há outros fatores negativos produzidos pela pandemia que também podem ser levados em consideração em uma avaliação das respostas empreendidas por diferentes países ou estados. Além de levar vidas, a pandemia produz outras formas de sofrimento que também podem ser levadas em conta. Suponhamos, por exemplo, que ao fim da pandemia dois países tenham taxas idênticas de mortes por milhões de habitantes, mas que, no primeiro deles, muitas pessoas morreram desassistidas, por exemplo, sem ter acesso a um respirador artificial ou a medicamentos de que necessitavam. Nessa situação, parece razoável dizer que o primeiro país respondeu pior à pandemia do que o segundo. Aspectos adicionais dirão respeito ao impacto da resposta à pandemia sobre o futuro, por exemplo, sobre a qualidade de vida da população dali em diante. Penso que esse último aspecto seja, em alguma medida secundário, visto que a qualidade da vida futura só é importante na medida em que consideramos importante a continuação e qualidade da presente. Se não for uma prioridade preservar as vidas de agora, não faz sentido uma preocupação com a qualidade da vida futura.
Implicações. No início da Ética a Nicômaco, Aristóteles diz que conhecer o que é mais importante para uma vida humana (algo que ele chamou de sumo bem) teria grande influência sobre como vivemos. “Semelhantes a arqueiros que têm um alvo certo para a sua pontaria”, disse ele, “não alcançaremos mais facilmente aquilo que nos cumpre alcançar?” (Abril Cultural, 1973). Saber o que é uma boa resposta à pandemia poderia igualmente ter impacto sobre como respondemos a ela. Se as considerações apresentadas até aqui são corretas, deveriam ter implicações em pelo menos dois setores. Um deles diz respeito ao tipo de informação que gostaríamos de acessar e produzir. Os canais oficiais de informação têm oferecido diariamente relatórios sobre o número de casos confirmados e de mortes. E os veículos de comunicação têm basicamente repetido essa informação (ver um exemplo). Mas essa informação bruta não é a mais relevante. Precisamos saber como a taxa de mortes por número de habitantes têm variado (talvez comparativamente a outras regiões) em cada estágio da propagação da doença (por exemplo, desde um certo número de dias desde o primeiro óbito). (Note-se que isto não é tudo que esperamos da mídia; esperamos também orientação sobre as melhores práticas individuais, fiscalização das autoridades, entre outros aspectos, que não estão sob discussão aqui).
Uma segunda implicação, e mais séria, diz respeito à qualidade dos dados brutos que são produzidos. Crucialmente, é preciso haver uma contagem confiável e padronizada do número de mortes resultantes da covid-19. Diferentes países adotaram critérios diferentes para contar as mortes e em alguns casos houve mudança de critérios dentro de um único país. Só mortes com teste positivo são contadas? Como são consideradas as mortes fora de um hospital ou quando o paciente tem outras doenças simultâneas? Qual é o tamanho da subnotificação? Obviamente, as condições impostas pela pandemia limitam o que se pode fazer a cada momento, mas mesmo nessas condições é relevante pensar com precisão sobre o que desejaríamos alcançar.
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