Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

Este é um desabafo, mais do que um argumento, que me sinto obrigado a fazer na condição de integrante das engrenagens que entendo estarem corroídas. (Os raciocínios estão guardados, caso alguém queira ouví-los, mas no geral é um assunto desconfortável de se discutir aberta e detalhadamente). Duvido que as maiores figuras que deram forma à tradição filosófica que chegou até nós poderiam ser valorizadas nos estágios iniciais de suas carreiras em boa parte das instituições de ensino e pesquisa de nosso país. Kant, Gadamer, Anscombe, Davidson, Nussbaum, após obterem o título de doutor em filosofia, correriam o risco de ficarem pra trás se concorressem com alguém que tivesse decidido completar seu currículo com publicações no jornalzinho da esquina. A burocratização da avaliação acadêmica sacrifica a discriminação pela qualidade e valoriza cegamente a quantidade, às vezes mais e às vezes menos diretamente. Um dos efeitos mais nocivos dessa prática é estimular os mais jovens (ou melhor, os desempregados) a imitarem as mesmas práticas tortas, em um cenário cada vez mais competivo e desafiador. Outro, o mais sério do ponto de vista do investimento público, é que nossas instituições deixam de atingir o potencial que poderiam. Como as revisões institucionais tendem a ser produzidas internamente, é duvidoso que um grupo suficientemente numeroso, dentre aqueles que entraram pelo mesmo caminho aqui criticado, terá o entendimento e a motivação necessários para promover qualquer mudança. É um autoexame que precisa ser feito: é preciso refletir sobre se os parâmetros ora utilizados estão produzindo os resultados que deveriam. Como passo inicial, poderíamos fazer, em cada instituição, a seguinte pergunta: como se sairiam em nossos processos de seleção aqueles que consideramos grandes representantes da profissão, aqueles com quem ocupamos nossas aulas? O que os distinguia antes de terem já produzido aquilo que lhes fez serem agora reconhecidos?

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4 respostas a “Kant passaria em um concurso público no Brasil?”

  1. Avatar de Ronai Rocha
    Ronai Rocha

    Caro Marcelo, parabéns por tocar esse tema. Há muitos problemas semelhantes a esse que precisam ser debatidos. Dou um exemplo. Em um recente concurso para uma vaga em departamento de humanidades, um dos membros da banca, depois de examinar o currículo dos candidatos, comentou que ao menos um dos candidatos possuía mais pontuação do que qualquer membro da banca examinadora. Depois de doutorar-se, o candidato havia se dedicado integralmente a crescer, curricularmente, dentro das regras o jogo e se tornara quase imbatível. Outro exemplo: estamos formando muito mais diplomados, em todos os níveis, do que jamais sonhamos, e há concursos nos quais há 100, 200, 300 candidatos. Em um deles, em outra IES, haviam tantos candidatos que a banca precisou fazer uma espécie de seleção prévia, para reduzir o número dos que seriam examinados presencialmente. Existem outros problemas, mais antigos, como a conexão entre a formação proporcionada e a realidade do ensino brasileiro, que estão na fila do debate, faz mais tempo. A fila não anda, ao que parece. Temos que insistir em conversar sobre essas coisas bem básicas. Abração!

  2. Avatar de Prof. Ricardo Bins di Napoli
    Prof. Ricardo Bins di Napoli

    Caro Marcelo. Velho problema. Claro há sempre os candidatos movidos por “publicações” em qualquer meio e a qualquer custo. Alguns, ingenuamente até um certo ponto, simplesmente aprenderam a lidar com a máquina. Outros maliciosamente, aprenderam a “usar” a máquina instalada a seu favor, por meio de outros favores, do tipo “é dando que se recebe”. Nem todos os formados tem a mesma qualidade. Se há muitos formandos em Filosofia, claro, concordo, pode haver algo muito errado no Ensino. Efetivamente, entretanto, haveria muitas coisas a serem feitas. Mas depende do Sistema como um todo. Sugiro continuares com as boas práticas e não abrires mão dos teus valores acadêmicos.

  3. Avatar de ricardobinsdinapoli

    Caro Marcelo. Esse processo acontece de longa data. Nada bom nos aspectos que mencionaste. É o sistema. Mudar somente com atores conscientes e eticamente motivados. Continue com as boas práticas e siga teus valores acadêmicos.

  4. Avatar de Aline Matos da Rocha
    Aline Matos da Rocha

    Marcelo, agradeço por você refletir e problematizar engrenagens que estão nos corroendo. Um abraço!

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