Está começando esta semana o curso “Entendendo o cérebro: A neurobiologia da vida cotidiana” no Coursera.org. É uma oportunidade para pessoas com diversos interesses entrarem em contato com a área, em particular para os que estudam filosofia da mente, da ação, ética, metaética entre outros.
Marcelo Fischborn
Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia
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Aqueles que pensam na possibilidade de estudar filosofia — licenciatura, bacharelado, mestrado ou doutorado — na Universidade Federal de Santa Maria encontrarão no vídeo abaixo uma primeira apresentação e aproximação com esses cursos:
Para quem pretende prestar o vestibular para o curso de filosofia, em particular, eu recomendaria adicionalmente que tomasse conhecimento das disciplinas que compõem o curso (ver o site do departamento), e que buscasse contato com alunos ou mesmo professores do curso (por exemplo, neste grupo no Facebook).
Para outros cursos do Centro de Ciências Sociais e Humanas, há vídeos similares no YouTube (por exemplo, para os cursos de História, Ciências Sociais, Ciências Contábeis, Economia etc.).
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Este post inaugura uma série que buscará descrever ou sugerir ferramentas que podem ser de grande valia para os que pretendem se dedicar à (pesquisa em) filosofia. O parêntese é para frisar que penso que não há muita diferença entre dedicar-se com seriedade à filosofia e estar de fato pesquisando em filosofia, fazendo filosofia. Filosofia é antes de tudo uma atividade de pensamento crítico, e, por isso, ou se está ativamente pensando ou não se está fazendo filosofia.
A ferramente número 1 nos dias de hoje é: língua estrangeira! O inglês provavelmente é a mais indicada. Aqui vão algumas considerações que pretendem justificar essa recomendação e, na sequência, algumas ferramentas on-line para auxiliar nesse processo.
- Por que aprender inglês?
Uma razão bem simples é: a maior parte dos filósofos e cientistas profissionais hoje em dia divulga seus resultados em inglês, até mesmo quando esta não é sua língua nativa. Por contraste, há muito menos filósofos (e menos ainda filósofos bons e reconhecidos por seu trabalho) que leem e escrevem em português.
Alguns números: digitando, por exemplo, “monismo anômalo” (entre aspas) no Google, obtemos aproximadamente 4,8 mil resultados. Quando digitamos “anomalous monism” esse número passa para 20,5 mil resultados. Quando vamos para o Google Scholar, que se restringe a materiais acadêmicos, os resultados para “monismo anômalo” são de cerca de 280, comparados a 1,8 mil em inglês. Em alemão, “Anomaler Monismus” resulta 5,2 mil resultados no Google e 58 no Scholar.
Consideremos um outro caso: “Crítica da razão pura” (Google: 868 mil; Scholar: 5,4 mil), “Critique of pure reason” (5 milhões ; 32,7 mil), “Kritik der reinen Vernunft” (258 mil; 28,6 mil).
Colocando os dados relativos apenas ao Google Scholar (que são os mais relevantes do ponto de vista acadêmico), temos os seguintes gráficos.

Gráfico: monismo anômalo no Google Scholar 
Crítica da razão pura no Google Scholar Moral da história, sem saber inglês teríamos acesso apenas a uma parcela consideravelmente restrita da literatura sobre ambos os assuntos. Como esses dois casos já mostram, pode haver variações, mas o leitor poderá fazer testes com os temas de pesquisa de seu interesse.
- Algumas ferramentas on-line
Google Tradutor: serve para traduzir palavras isoladas, expressões, frases, textos ou mesmo páginas de sites inteiras. Opera em várias línguas,
Dicionário Michaelis On-line: dicionário on-line, traduzindo do português para várias línguas e de várias línguas para o português.
The Free Dictionary: dicionário bastante completo em várias línguas. Recomendado para expressões de difícil tradução.
SpellCheckPlus: verificador de ortografia e gramática do inglês. Recomendado para a revisão inicial de textos escritos em inglês.
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Aqui está um belo texto de Desidério Murcho, intitulado “A natureza da filosofia e seu ensino“, publicado na revista Educação, 27.2 (2002). Enfatizo algumas passagens:
“A pergunta que se impõe é esta: o que vamos então estudar e ensinar aos nossos estudantes? Se a Filosofia não tem conteúdos, que vamos nós fazer? É muito simples: vamos estudar e ensinar a discutir os problemas da Filosofia, começando pelos mais acessíveis e avançando para os mais difíceis. Para uma pessoa poder discutir com pés e cabeça um problema qualquer da filosofia, tem de ter os conhecimentos relevantes (de ciência, arte, etc.), como já fiz notar. E tem de conhecer minimamente a discussão atual desse problema. Do mesmo modo que um físico ou um historiador não pode ignorar as respostas dos seus colegas aos problemas que o preocupam, também o filósofo não pode ignorar as respostas dos outros filósofos aos problemas que o preocupam. E a verdade é que se aprende muito estudando essas discussões, apesar de não se aprender conteúdos perfeitos e acabados como os da Física ou da História do ensino médio — mas como já ficou claro, esses conteúdos perfeitos e acabados da História e da Física do ensino médio não são, nem de perto nem de longe, o que interessa aos grandes historiadores e aos grandes físicos. Finalmente, para uma pessoa poder discutir um problema em Filosofia, tem de saber discutir problemas: tem de saber lógica formal e informal, do mesmo modo que um historiador tem de saber compreender um documento ou um físico tem de saber fazer uma experiência ou compreender uma fórmula.” (p. 15)
“O estudo da Filosofia começa pela compreensão gradual de um determinado problema ou conjunto de problemas filosóficos. O que é realmente o problema do livre arbítrio, por exemplo? Como podemos formulá-lo com precisão? O que está em causa? Por que razão é importante? Não será antes uma confusão, um falso problema?” (p. 15)
“Como é evidente, os problemas existem para ser resolvidos, e os filósofos oferecem as suas soluções, as suas teorias, para resolver esses problemas, tal como os físicos e os biólogos. Mas serão essas teorias boas? Temos de pensar, analisar com cuidado as diferentes teorias, verificar todos os passos em que a teoria se apóia, e ver se o problema fica realmente resolvido, ou apenas disfarçado, reaparecendo noutro lado. O estudante de Filosofia compara essas teorias, forma a sua própria opinião sobre elas, e, se for criativo, cria a sua própria teoria ao longo de alguns anos de estudo e reflexão.” (p. 16)
“Um ensino de qualidade da Filosofia não é possível sem um espaço para que o estudante discuta idéias. No King’s College London cada estudante tem um tutor cujo papel é obrigá-lo a tomar posição e a saber defender as suas idéias. Todas as semanas, o estudante tem uma aula privada de uma hora (ou num grupo pequeno de não mais de 4 ou 5 estudantes, no caso dos estudantes de licenciatura). Todas as semanas o estudante tem de escrever um pequeno ensaio (que varia de tamanho, consoante é um estudante de licenciatura — apenas uma página — ou de mestrado — em geral, 4 páginas) respondendo a uma pergunta colocada pelo tutor. O tutor indica dois ou três textos clássicos ou contemporâneos que o estudante deve ler para poder responder a tal pergunta. Mas o importante é que o estudante tome uma posição informada, compreendendo o problema em causa e as respostas que os textos dados apresentam. O ensaio do estudante é depois discutido com um tutor, durante uma hora. E o único objetivo da discussão é fazer o estudante dizer o que pensa e defender as suas idéias — e não limitar-se a regurgitar as idéias dos outros. O estudante aprende, assim, pela prática, a fazer Filosofia: aprende a discutir idéias filosóficas, a rever as suas posições, a ter em consideração contra-argumentos e contra-exemplos, aprende a ver alternativas, sente a dificuldade de defender as suas idéias. Num ensino de qualidade da Filosofia, não se pode desprezar o momento da discussão filosófica: sem esse momento, não há bom ensino da Filosofia” (p. 16-17)
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A revista Sképsis acaba de publicar minha tradução do artigo de Donald Davidson, “O problema da objetividade”. Veja aqui.
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Os filósofos John Perry, Ken Taylor, Brian Leiter, Jenann Ismael e Martha Nussbaum, no programa Philosophy Talk, elegeram os 10 problemas filosóficos mais urgentes do século XXI. Penso que ter em mente a noção de um problema filosófico é de extrema relevância no aprendizado da filosofia, pesquisa e ensino da filosofia. Trabalhar com problemas bem definidos pode poupar tempo e trazer resultados mais recompensadores. E compartilho a lista pois também pode ser inspiradora para quem esteja pensando em investir na formação filosófica, ou mesmo estar escolhendo um tema de pesquisa.
Lista completa: em inglês e na tradução do Google Tradutor.
Lista resumida:
10. Encontrar uma nova base para as sensibilidades e valores comuns
9. Encontrar uma nova base para a identidade social
8. O problema mente-corpo
7. A liberdade pode sobreviver ao ataque da ciência?
6. Informação e má-informação na era da informação
5. A propriedade intelectual na era da mixagem e remixagem
4. Novos modelos da tomada de decisões e racionalidade coletiva
3. O que é uma pessoa?
2. Os humanos e o ambiente
1. Justiça global -
Está disponível no YouTube um canal chamado No Jardim da Filosofia. Ali é possível assistir a entrevistas e exposições sobre temas filosóficos de caráter introdutório e acessíveis ao público leigo. Entre os temas abordados estão o conhecimento, o problema da indução, inteligência artificial, entre outros. Vale a pena conferir!
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Num outro post, escrevi algumas notas provisórias sobre a pesquisa em filosofia. Apareceu ali, de forma tímida, a sugestão de que seria recomendável manter-se a par dos desenvolvimentos científicos. Neste post reúno informações sobre um grupo de filósofos que tiveram uma formação inicial marcada pela ciência, especialmente a matemática. Mesmo que porquê fique por ser respondido, penso que esses casos sugerem que a ciência pode ter uma contribuição mais central para a formação filosófica, e que uma formação purista, frequentemente oferecida nas universidades brasileiras, pode não ser lá uma das apostas mais sábias.
Vejamos alguns casos:
René Descartes: estudou inicialmente matemática e física, e posteriormente direito. Teve várias contribuições em matemática e filosofia, tentando inclusive aplicar o método matemático para a filosofia (fonte).
Gottfried Leibniz: obteve graduação e mestrado em filosofia, e também graduação e doutorado em direito. Posteriormente dedicou-se à física e matemática, onde fez importantes contribuições (fonte).
Edmund Husserl: dedicou-se inicialmente à matemática, física e astronomia, estudando, posteriormente, também filosofia. A tese de doutorado foi em matemática (fonte).
Gottlob Frege: sua formação inicial na universidade foi principalmente em física e matemática. Obteve seu doutorado com uma tese em geometria. Seu trabalho posterior foi em grande medida dedicado à lógica (fonte).
Bertrand Russell: na adolescência interessou-se por matemática e temas de religião e filosofia. Dedicou-se posteriormente principalmente aos fundamentos da matemática, à filosofia e também a assuntos políticos. (fonte)
Rudolf Carnap: dedicou-se inicialmente à física, tendo sido aluno de Frege e mantido contato com Einstein. Além disso, teve contato com os escritos de Kant, que influenciou sua tese de doutorado em filosofia sobre teoria do espaço, a qual fora inicialmente planejada como uma tese em física (fonte).
Willard Van Quine: concluiu graduação em matemática e o doutorado em filosofia (fonte).
Donald Davidson: dedicou-se no início de sua formação a estudos de língua inglesa e literatura, passando em seguida a línguas clássicas e filosofia. Posteriormente, após um período na escola de negócios de Harward, escreveu uma tese de doutorado sobre o Filebu de Platão, tomando ainda contato com uma abordagem mais formal da filosofia de Quine e participando de estudos experimentais de psicologia sobre teoria da decisão, com Patrick Suppes (fonte).
David Chalmers: estudou matemática inicialmente, e depois concluiu doutorado em filosofia e ciências cognitivas (fonte).
Temos aqui uma lista de nove filósofos dos tempos modernos para cá que tiveram uma formação científica significativa. Seria prudente buscar exceções, mas é também provável que a lista possa ser ampliada e diversificada. Platão, por exemplo, escreveu que não deveriam entrar em sua Academia os que não conhecessem geometria, e mesmo na formação e obra de Kant encontramos um espaço para geometria e física. Assim, é de se perguntar se o conhecimento científico, ou mesmo matemático, teria um papel (e qual) a desempenhar na formação de um filósofo. Estaria a filosofia perdendo algo importante na formação universitária departamental atual? Os exemplos acima tornam tentador dizer que sim, mas é claro que essa é uma daquelas questões complexas que um mero post não pode fazer muito mais do que simplesmente levantar.
Edição 1: Uma fonte adicional de suporte para a sugestão deste post é a formação dos filósofos brasileiros que têm trabalhos amplamente reconhecidos. Newton da Costa, para dar um exemplo, sequer tem formação em filosofia, sendo amplamente reconhecido a nível internacional. (Uma lista de filósofos com repercussão internacional pode ser conferida neste post que escrevi para o blogue do PhilBrasil; suas formações podem ser conferidas através do Currículo Lattes).
Edição 2: Após discutir com colegas as ideias deste post, acho que agora consigo expressar melhor o que tinha em mente: se levarmos em conta dados como os acima (e se eles forem representativos da totalidade) parece mais provável que alguém se torne um filósofo bem sucedido se tiver alguma formação em outra área (na maioria das vezes em matemática), do que tendo formação em filosofia. Isso é contra-intuitivo, pois parece que os cursos de filosofia é que deveriam ter a competência de gerar filósofos. Obviamente, os dados fornecidos podem não ser representativos e a hipótese equivocada. Mas, se forem minimamente precisos, fica o desafio de explicar por que as coisas são assim.
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Gostaria de compartilhar esta valiosa dica do professor Desidério Murcho sobre como estudar filosofia:
..Não basta compreender rigorosamente o pensamento do autor; é também preciso aprender a discuti-lo. Isto significa levantar objecções e contra-exemplos às ideias estudadas.
Numa concepção inadequada do ensino espera-se que o aluno seja primeiro capaz de descrever de maneira absolutamente correcta o pensamento de um dado autor, só estando autorizado a discuti-lo depois disso. Porém, esta não é a maneira humana normal de aprender. O resultado deste tipo de ensino é formar repetidores incapazes de avaliarem por si mesmos as ideias que repetem.
No ensino de excelência, os dois aspectos alimentam-se mutuamente. Fazer uma objecção tola a uma ideia estudada é uma excelente maneira de descobrir, com a ajuda dos professores e colegas, que não a entendemos adequadamente. É uma excelente maneira de descobrir que precisamos de compreender melhor a ideia estudada. Sem esta liberdade para errar, os estudantes entendem igualmente mal as ideias estudadas mas, como se limitam a parafraseá-las, nem o professor nem eles mesmos se apercebem disso. Por outro lado, fazer uma objecção inteligente a uma ideia estudada é a melhor expressão da completa compreensão da mesma.
A citação é do texto “Como se estuda filosofia?” disponível na página pessoal de Desidério Murcho. O itálico foi adicionado.