“Há muitas pessoas, incluindo filósofos, psicólogos e particularmente aqueles que admiram a inteligência surpreendente de animais sem linguagem (speechless), que identificam a habilidade de discriminar itens que têm certa propriedade com ter um conceito – com ter o conceito de ser um tal item. Mas eu não usarei a palavra ‘conceito’ desse modo. Minha razão para resistir a esse uso é que, se o aceitássemos, estaríamos comprometidos em defender que os mais simples animais têm conceitos: mesmo uma minhoca, que tem um cérebro tão pequeno que, se cortada em duas, cada parte comporta-se como a inteira não-dividida se comportava, teria os conceitos de seco e úmido, do comestível e não-comestível. De fato, deveríamos creditar tomateiros ou girassóis com os conceitos de dia e noite.
Eu preferirei, portanto, reservar a palavra ‘conceito’ para casos onde faça claramente sentido falar de um engano (mistake), um engano não apenas como visto do ponto de vista de um observador inteligente, mas como visto do ponto de vista da criatura. Se uma minhoca come veneno, ela não cometeu um engano nesse sentido – ela não confundiu (mistaken) uma coisa com outra: ela simplesmente fez o que está programada para fazer. Ela não classificou erroneamente o veneno como comestível: o veneno simplesmente forneceu o estímulo que a fez comer (caused it to eat). Mesmo uma criatura capaz de aprender a evitar certos alimentos, não pode, por esta razão sozinha, ser dita ter os conceitos de comestibilidade e incomestibilidade. Uma criatura poderia construir um ‘mapa’ do seu mundo sem ter a ideia de que aquilo era um mapa de alguma coisa – que era um mapa – e, assim, poderia estar errado.
Aplicar um conceito é fazer um juízo, classificar ou caracterizar um objeto, evento ou situação de um certo modo, e isso requer aplicação do conceito de verdade, uma vez que é sempre possível classificar ou caracterizar erroneamente alguma coisa. Ter um conceito, no sentido que estou dando à palavra, é, então, ser capaz de portar [manter, entertain] conteúdos proposicionais: uma criatura tem um conceito somente se é capaz de empregar tal conceito no contexto de um juízo. Poderia parecer que alguém teria o conceito de, digamos, uma árvore, sem ser capaz de pensar que, ou admirar-se que, algo é uma árvore, ou desejar que haja uma árvore. Entretanto, tal conceitualização não remeteria a mais que ser capaz de discriminar árvores – agir de algum modo específico na presença de árvores – e isso, como eu disse, não é o que eu chamaria de ter um conceito. Para reverter para um ponto anterior: dada a teoria da evolução, não é difícil imaginar uma explicação primitiva da faculdade de discriminação: um colibri, por exemplo, sobrevive porque está programado a alimentar-se de flores na variedade de cores vermelhas e infravermelhas, e essas são as flores que contêm os alimentos que tendem a sustentar o colibri. Não é fácil dizer o que deve ser acrescentado ao poder de discriminação para transformá-lo em domínio de um conceito.
Esses atributos mentais são, assim, equivalentes: ter um conceito, manter proposições, ser capaz de fazer juízos, ter o domínio do conceito de verdade. Se uma criatura tem um desses atributos, ela tem todos. Aceitar essa tese é dar o primeiro passo em rumo a reconhecer o holismo – isto é, a interdependência essencial – de vários aspectos do mental.” (“The Problem of Objectivity” em Problems of Rationality, Oxford: Clarendon Press, 2004, pp8-9, minha tradução).
Marcelo Fischborn
Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia
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Há algum tempo atrás, enquanto eu estava estudando uma discussão sobre asserção, acabei lendo o livro Speech Acts, de John Searle. Antes de mais nada fiquei encantado com o estilo de escrever deste importante filósofo, principalmente quanto à clareza.
Por ter-me detido mais à questão da asserção, “tive a sorte” de encontrar um pequeno engano (provavelmente de digitação) no Capítulo 3, seção 3.4 “Extending the analysis”. Na frase que começa na linha 9 da página 64 (edição de 2007) diz assim:
“For assertions, the preparatory conditions include the fact that the hearer must have some basis for supposing the asserted proposition is true, […]”
A palavra “hearer”, para quem tem familiaridade com a teoria de Searle, está equivocada aí. O correto seria “speaker”, é o falante que tem que ter alguma base para supor que a proposição que ele afiam é verdadeira, não o ouvinte.
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A little typo on Speech Acts by John Searle:
In Chapter 3, section 3.4 “Extending the analysis” (p.64 in the edition of 2007):
“For assertions, the preparatory conditions include the fact that the hearer must have some basis for supposing the asserted proposition is true, […]”
“hearer” is to be read “speaker”.
Livro:
Searle, Speech Acts: ver em Amazon.com. -
Por acaso, trompei ontem com o seguinte trecho da Crítica da Razão Pura (1781) de Kant :
“Ainda menos se deverão considerar idênticoso fenômeno e a aparência. Porque a verdade ou a aparência não estão no objeto, na medida em que é intuído, mas no juízo sobre ele, na medida em que é pensado. Pode-se pois dizer que os sentidos não erram, não porque o seu juízo seja sempre certo, mas porque não ajuízam de modo algum. Eis porque só no juízo, ou seja, na relação do objeto com o nosso entendimento, se encontram tanto a verdade como o erro e, portanto, também a aparência, enquanto induz este último.” (Kant, na Crítica da Razão Pura, primeiro parágrafo da Dialética Transcendental, sublinhados meus).
De imediato, me vieram também à cabeça Descartes, nas Meditações (1641):
“3. Tudo o que recebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi-os dos sentidos ou pelos sentidos: ora, experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos, e é de prudência nunca se fiar inteiramente em quem já nos enganou uma vez.” (Descartes, Meditação Primeira, parágrafo 3, meus sublinhados).
E veio também Austin (ao lado de Kant??), no Sentido e Percepção (1959):
“5. Considere-se, a seguir o que se diz sobre o engano dos sentidos. Admitimos, afirma-se, que ‘às vezes somos enganados pelos sentidos’, ainda que, em geral, achemos possível ‘confiar’ nas ‘percepções dos sentidos’.
Em primeiro lugar, embora a frase ‘enganados pelos sentidos’ seja metáfora corrente, não deixa de ser uma metáfora; e isto é digno de nota, pois, no que vem a seguir, a mesma metáfora é freqüentemente retomada e continuada pela expressão ‘verídico’. Na verdade nossos sentidos são mudos – ainda que Descartes e outros falem do ‘testemunho dos sentidos’ -, os sentidos não nos dizem nada de verdadeiro nem de falso.” (Austin, Sentido e Percepção, Cap 2, p 12, Martins Fontes, 2004, meus sublinhados).Livros:
Austin, Sentido e Percepção: ver na Livraria Cultura.
Descartes, Meditações Metafísicas: ver na Livraria Cultura.
Kant, Crítica da Razão Pura: ver na Livraria Cultura. -
É meio-dia e a mãe de Pedro precisa sair de casa, sendo que não sabe a que horas irá voltar. Antes de sair, porém, ela exige de Pedro que prometa que se chover, então ele recolherá a roupa do varal. Pedro concorda. A mãe de Pedro sai. Entretanto, logo em seguida, amigos de Pedro chegam e o convidam para jogar futebol num campinho não muito próximo.
Como poderá Pedro, ao mesmo tempo, ir jogar futebol com os amigos e não descumprir o trato que fizera com a mãe, independentemente de que chova ou não?
Comente e tente acertar a resposta. Dicas? Aqui.
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Sobre este post: este escrito será o primeiro de uma série voltada a alunos do ensino médio. Se este é o seu caso, eu ficaria muito grato de ouvir um comentário seu; o mesmo também vale para todos aqueles que não são estudiosos de filosofia. Para estudiosos de filosofia (mas não excluindo esta oportunidade dos demais) comentários críticos e discussões sobre conteúdo e metodologia serão também bem-vindos.
O conetivo SE-ENTÃO (ou “A condicional material)
Aproveitando o espírito da questão 44 do Vestibular deste ano (2010) da UFSM gostaria de começar uma série de postagens no blog apresentando o conetivo “se-então”. Comecemos considerando a seguinte sentença:
(1) Se João vai à igreja, então João é uma boa pessoa.
O que seria necessário para mostrar que essa afirmação é falsa? Primeiramente, mostraríamos que essa afirmação é falsa apresentando uma afirmação que seja verdadeira e que diga justamente o contrário de (1). Em outros termos, para falsificar (1) temos que dizer que sua negação é verdadeira. Mas qual é a negação de (1)? Alguém, talvez intuitivamente, poderia ficar tentado a dizer que a negação de (1) seria algo como:
(2) Se João vai à igreja, então não é uma boa pessoa.
ou, ainda:
(3) Se João não vai à igreja, então João é uma boa pessoa.
Entretanto, embora talvez sugestivas, estas duas opções (2 e 3) não são boas candidatas a negação de (1). Por quê? Bem, para responder isso precisamos considerar um pouco mais atentamente a afirmação original (1). Para entendê-la de modo mais refinado, devemos perceber que ela contém duas afirmações que podem ser separadas:
(p) João vai à igreja; e
(q) João é uma boa pessoa.Mas (1) não é composta somente de (p) e (q); há ainda duas expressões (“se” e “então”) que ligam essas duas afirmações. Essas duas expressões são tratadas em lógica como um único conetivo de sentenças – um conector de sentenças. O conetivo “se-então” é chamado de “condicional material” (ou ainda, “implicação material”). Além disso, a sentença p é chamada de “antecedente” e q de “consequente”. Assim, também poderíamos escrever (1) como:
(1)’ Se p, então q.
Mas como a condicional “se-então” relaciona as sentenças o antecedente p e o consequente q? O que ela diz sobre essas duas sentenças? O que este conetivo diz a respeito das duas afirmações que compõem (1) é o seguinte:
(1)” Se é verdade que João vai à igreja, então também é verdade que João é uma boa pessoa.
ou:
(1)”’ Se é verdade que p, então também é verdade que q.
Assim, o significado do conetivo “se-então” seria: se o antecedente é verdadeiro, então o consequente também o é.
Mas e quanto à nossa pergunta: qual é a negação de (1); qual é a negação de “se p, então q”? Por definição, na lógica clássica (das proposições) esta afirmação só seria falsa se fosse verdadeiro que João vai à igreja e (ao mesmo tempo) falso que ele é uma boa pessoa. Em outras palavras: (1) só seria falsa se p fosse verdadeira e q fosse falsa. Em qualquer outro caso (1) seria verdadeira. Assim, a negação de (1) seria (expressaremos a negação com o símbolo “~”):
~(1) João vai à igreja e João não é uma boa pessoa.
ou, ainda:
~(1)’ p e ~q. (afirma p ao mesmo tempo que nega q)Para que tudo isso fique mais claro, vamos imaginar todas situações possíveis com as quais a afirmação (1) poderia se defrontar. (Lembrando que (1) só é falsa se o antecedente for verdadeiro e o consequente falso, uma vez que o que a condicional material nos diz é que, quando o antecedente é verdadeiro, o consequente também tem que ser verdadeiro.) Passemos às situações hipotéticas possíveis:
(1) Se joão vai à igreja, então é uma boa pessoa.
Situação (a):
– João vai à igreja (é Verdade que João vai à igreja);
– João é uma boa pessoa (é Verdade que João vai à igreja);Assim, a afirmação (1) é VERDADEIRA neste contexto (é verdade que Se João vai à igreja, então João é uma boa pessoa).
Situação (b):
– João vai à igreja.
– João não é uma boa pessoa (é Falso que João é uma boa pessoa).Neste caso (como vimos acima) a afirmação (1) é FALSA, pois o significado de “se-então” é justamente que se e verdade que João vai à igreja, então também tem que ser verdade que ele é uma boa pessoa.
Situação (c):
– João não vai à igreja (é Falso que João vai à igreja)
– João é uma boa pessoa.Nesta situação (c), a afirmação (1) é VERDADEIRA. Isso pode soar estranho, mas o que a condicional “se-então” nos diz é o que deve ocorrer se o antecedente for verdadeiro (que neste caso o consequente tem de também ser verdadeiro). Mas a condicional não informa o que deve ocorrer com o consequente se o antecedente for falso (como ocorreu neste caso).
Obs: este caso parece não corresponder ao uso que fazemos de afirmações condicionais na linguagem do cotidiano. Uma maneira de se entender melhor esta linha pode ser a seguinte: só mostramos que uma afirmação condicional é falsa se tivermos um antecedente verdadeiro e consequente falso. Se o antecedente não é verdadeiro não temos como mostrar que a condicional é falsa. Sendo assim, consideramos a condicional verdadeira, “até que se prove o contrário”.
Situação (d):
– João não vai à igreja.
– João não é uma boa pessoa.Nesta situação, assim como na anterior, (1) é VERDADEIRA, uma vez que o significado da condicional não nos faz nenhuma exigência sobre o consequente quando o antecedente é falso.
RESUMO
1. O conetivo “se-então” nos diz que se o antecedente for verdadeiro, o consequente também tem que ser. (O símbolo para a condicional “se-então” é “->” [seta para a direita]).
2. Assim, uma afirmação do tipo “p -> q” só será Falsa se p é verdadeira e q falsa.
3. Podemos relacionar os possíveis valores de verdade de “p”, “q”, e da condicional “p -> q” numa tabela como a seguinte (“V” para “verdadeiro”; “F” para “falso”):| p | q | p -> q |
| V | V | V |
| V | F | F |
| F | V | V |
| F | F | V |
(Tabela de Verdade da Condicional Material)Com esta tabela fica evidente que condicional “se-então” só é Falsa se o antecedente for verdadeiro e o consequente falso (esta é a negação da condicional). Esta tabela esgota todas as possibilidades, assim como os exemplos acima.
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Quero com este post trazer ao blog um tema que é novo para mim. Trata-se da psicanálise (sob a forma de filosofia da psicanálise ou da psicologia), e o que me chama a atenção nesse assunto é a diversidade de opiniões que os mais variados filósofos contemporâneos tiveram ou têm a este respeito. O assunto sem dúvida é polêmico e não acabado. Para introduzir o tema aqui vou fazer citações da filósofa e psicanalista Marcia Cavell e do filósofo John Searle. O que chamará a atenção são as posições radicalmente opostas que os dois mantém. (Faço ao mesmo tempo uma divulgação do livro de Cavell e convido quem já o tenha lido, ou quem simplesmente esteja interessado no assunto, a comentar).
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Trecho de Marcia Cavell, Becoming a Subject – Reflections in Philosophy e Psychoanalysis (New York: Oxford University Press, 2006), 3-5pps:
“ A direção de influência entre filosofia e psicanálise vai em ambas as direções. Como uma teoria dedicada ao que é ser uma pessoa, a ampliar (como uma questão de prática) o escopo no qual agimos em algum sentido livremente, e com o auto-conhecimento, a psicanálise pode aprender com a filosofia, uma vez que é aí que ocupou-se mais atenciosamente destes temas. Em retorno, tratamentos filosóficos deles demandam, eu acredito, reconhecimento de algumas alegações básicas da psicanálise.
Entre as duas disciplinas há uma grande área de sobreposição e, obviamente, muitas diferenças, uma das quais é que em filosofia e nas ciências duras o particular entra principalmente na forma de instância e exemplo, enquanto que, tanto em sua teoria quanto em sua prática, a psicanálise precisa glorificar o fato de que nunca dois seres humanos são mais do que grosseiramente semelhantes. Freud tem sido algumas vezes criticado por assumir que há tal coisa como uma natureza humana, ou um conjunto de generalizações que podem ser feitas a respeito de todas as pessoas em todos os tempos. Eu não estou certa de que ele assume isso. Ele certamente acredita que grandes perturbações na cultura podem mudar o que temos tomado como sendo o natural e universal. (Pense em Totem and Taboo e Civilization and its Discontents.) Mas, de qualquer modo, embora a psicanálise frequentemente faça vastas generalizações sobre desenvolvimento, ela não generaliza sobre ‘o sujeito’; ela toma cada um de nós como sendo único de um modo como qualquer tipo de ‘ciência’ possível sobre nós deve moldar-se. Devesse a psicanálise abandonar tal perspectiva, como ela faria se, por exemplo, decidisse que o discurso sobre o mental poderia ser completamente substituído por um discurso sobre circuitos neurais, e ela estaria morta. Mas, longe de mover-se em tal direção, analistas estão cada vez mais cientes, precisamente, de quão complexas são as variáveis que afetam o que cada um de nós sente, pensa, ou diz à sua analista, e a própria relação analítica.
Psicanálise, portanto, é, e deve ser, uma ciência “peculiar”, como se reflete no fato de “psicanálise” referir-se, de uma só vez, a uma teoria da mente, um método de prática clínica, e uma teoria sobre essa prática. Talvez essa peculiaridade seja uma das fontes do espanto que ela tão frequentemente levantou. Embora eu acredite que haja também outras.
Por um longo período, filósofos, interessantemente mais na Grã-Bretanha que na América, souberam que seus interesses filosóficos amarravam-se na psicanálise. Da Grã-Bretanha, pense em Stuart Hampshire, Ludwig Wittgenstein, John Wisdom, Richard Wollheim, Alasdair MacIntyre, David Pears, James Hopkins, Sebastian Gardner, David Snelling; dos Estados Unidos e Canadá: Herbert Fingarette (cujo trabalho tem sido, em minha opinião, insuficientemente aproveitado), Richard Kuhns, Stanley Cavell, Jonathan Lear, Jerome Neu, Donald Davidson, Ronald de Sousa, Adolph Grunbaum (em desprezo).” (Minha Tradução).————–
Agora o Searle. Ele fala da psicologia Freudiana em particular. O livro é Mente, Linguagem e Sociedade – Filosofia no mundo real (Rio de Janeiro: Rocco, 2000 [originalmente de 1998]). Searle fala da psicologia como um dos ataques à visão moderna (iluminista) do mundo e do homem:
“… a psicologia freudiana foi considerada não como uma porta de entrada para uma racionalidade melhorada, mas sim como uma prova da impossibilidade da racionalidade. Segundo Freud, a consciência racional é apenas uma ilha no oceano do inconsciente irracional.” (p.12-13)
E, rejeitando esse ataque:
“… a psicologia freudiana, qualquer que tenha sido sua contribuição definitiva para a cultura humana, não é mais levada a sério como teoria científica. Ela continua a existir como fenômeno cultural, mas poucos cientistas sérios acreditam que forneça uma explicação cientificamente consistente do desenvolvimento psicológico e da patologia humanos.” (p.14)
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A forma como Searle trata do assunto é de visível desprezo. Outro filósofo famoso por criticar o status de “ciência” da psicanálise foi Karl Popper. Mas, como Cavell mencionou, vários outros filósofos de peso abordaram questões que se ligavam à psicanálise, como Wittgenstein e Davidson. A questão sem dúvida é intrigante.
* O texto de Cavell pode ser visualizado no Google Books, aqui.
Livros:
Cavell, M. Becoming a subject: ver em Amazon.com.
Searle, J. Mind, language and society: ver em Amazon.com. -
Resumo: (Primeiramente, o leitor que não está interessado em discussões sobre ensino de filosofia, e quer apenas ampliar seu conhecimento sobre a filosofia de Heráclito, pode ir diretamente à seção III.) Em I apresento brevemente a discussão sobre ensinar filosofia a partir de seus problemas ou a partir de sua história. Em II faço uma crítica a certas “apresentações apressadas” de filósofos como Heráclito em aulas de filosofia de enfoque histórico no ensino médio. Em III, em parte justificando a crítica, trago algumas citações de Heráclito para salientar que ele se ocuupou com diversos problemas e, por isso, caricaturas e simplificações extremas não são adequadas.
I – Ensinar História da Filosofia?
Tenho acompanhado discussões sobre como ensinar filosofia no ensino médio. Há uma discussão sobre se o enfoque deve ser de tipo histórico ou em temas e problemas. Uma posição que parece ser sensata é que não se abra mão do recurso ao texto clássico. Mas quanto a ele ser o fim da atividade de ensino, isso requer mais discussão.
A defesa de que o enfoque seja nos problemas filosóficos que apareceram no decorrer da sua história da filosofia pode recorrer ao fato de que foram esses problemas que motivaram e motivam os filósofos a escrever. E, também, que o caráter crítico e argumentativo da filosofia é melhor respeitado se o enfoque ao ensiná-la é em seus problemas e entendendo que os escritos dos filósofos foram tentativas de resolvê-los.
II – Crítica a apresentações “apressadas” de um filósofo
Agora o Heráclito. Escolhi ele como um exemplo, devido a sua certa “popularidade” nos manuais e aulas de filosofia de enfoque histórico. Quero defender que é muito pobre, e também problemática, a apresentação deste filósofo, assim como deve também ser a de vários outros dessa abordagem. Exemplos de textos voltados a alunos do Ensino Médio sobre Heráclito podem ser vistos aqui e (de forma um pouco mais elaborada) aqui.
Um problema neste tipo de texto é que não destaca nada sobre os escritos do próprio Heráclito. Não é informado ao leitor que de Heráclito só temos fragmentos, nem o caráter problemático das traduções feitas a partir das versões originais e da complicada e necessária interpretação que é dada a esses trechos. O outro problema é que parecem focar-se em apenas em um ou outro aspecto da sua filosofia, levando a caricaturas grosseiras do autor como “O filósofo do movimento”, “do fogo” ou “do Lógos”. Fora isso, num âmbito mais geral, sem o enfoque nos problemas o filósofo pode parecer um idiota. Certas teorias propostas no decorrer das historia não fazem sentido se não sabemos mais da sua razão de surgir e dos recursos de saber disponíveis em tal época. Penso que faz mais sentido ao aluno ficar a par de tudo isso.
III – Assuntos variados nos escritos de Heráclito
Para trazer à tona alguns aspectos mais do trabalho de Heráclito vou citar alguns fragmentos do próprio Heráclito. Tento mostrar, assim, a variedade de assuntos que o filósofo tratou e, quem sabe, provocar uma surpresa aos que foram apresentados a Heráclito por aí sem nenhum contato com o que ele de fato nos deixou.
Heráclito escreveu sobre a morte:
“27 – O que aguarda os homens após a morte, não é nem o que esperam nem o que imaginam.”
Sobre a felicidade:
“4 – Se a felicidade consistisse nos prazeres do corpo, deveríamos proclamar felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer.”
Há, também, um fragmento muito esquisito:
“96 – Os cadáveres deveriam ser lançados fora como estrume.”
Falou sobre a lei:
“33 – Lei é também obedecer à vontade de um só.”
Sobre a alma:
“45 – Mesmo percorrendo todos os caminhos, jamais encontrarás os limites da alma, tão profundo é o seu Logos.”
“67a – Assim como a aranha, instalada no centro de sua teia, sente quando uma mosca rompe algum fio (da teia) e por isso acorre rapidamente, quase aflita pelo rompimento do fio, assim a alma do homem, ferida alguma parte do corpo, apressadamente acode, quase indignada pela lesão do corpo, ao qual está ligada firme e harmoniosamente.”
Há, como se pode ver, vários fragmentos bem se enquadrariam no que chamamos de filosofia prática. Há mais fragmentos sobre esses assuntos. Nos seguintes, por exemplo, Heráclito parece ter uma posição um tanto “subjetivista” sobre os valores e gostos:
“102 – Para Deus tudo é belo e bom e justo; os homens, contudo, julgam umas coisas injustas e outras justas.”
“9 – Os asnos prefeririam a palha ao ouro.”
“29 – Uma coisa preferem os melhores a tudo: a glória eterna às coisas perecíveis; mas a massa empanturra-se como o gado.”
“37 – Porcos banham-se na lama, pássaros no pó e na cinza.”
“49 – Um vale aos meus olhos dez mil, se é o melhor.”
“58 – (Bem e mal são a mesma coisa). Os médicos cortam, queimam, (torturam de todos os modos os doentes, exigem) um salário, ainda que nada mereçam, fazendo(lhes) um bem semelhante (à doença).”
“111 – A doença torna a saúde agradável; o mal, o bem; a fome, a saciedade; a fadiga, o repouso.”
E, também, temos os trechos de Heráclito sobre o rio e a mudança (que parecem em muitas apresentações de Heráclito, ser a única coisa que ele disse):
“12 – Para os que entram nos mesmos rios, correm outras e novas águas. Mas também almas são exaltadas do úmido.”
“49a – Descemos e não descemos nos mesmos rios; somos e não somos.”
“91 – Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reúne-se; avança e se retira.”
Gostaria de finalizar, ainda, com mais dois fragmentos que tratam do mundo e sua objetividade:
“30 – Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez;sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida.”
“89 – Para aqueles que estão em estado de vigília, há um mundo único e comum.”
Como se pode ver, os temas são vários. E, também podem ser várias as interpretações dadas a estes fragmentos. Como se respeita estas complexidades em uma aula?
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Todas as citações acima são do livro Os filósofos pré-socráticos organizado por Gerd A. Borheim (Editora Cultrix:São Paulo, 1993. Capítulo dedicado a Heráclito).