Marcelo Fischborn

Doutor em Filosofia. Professor no Instituto Federal Farroupilha. Autor de Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia

Agosto foi o mês de lançamento de meu livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia, disponível no site da editora, na Amazon e em outros canais. Neste mês inicial, tive oportunidades felizes de apresentá-lo a colegas, amigos e também a pessoas que não mantêm um contato profissional ou mais sistemático com a filosofia. Gostaria de registrar aqui um pouco do que tenho falado para contextualizar o material e também do que tenho ouvido em retorno.

Leitura em sala de aula e a Breve introdução à filosofia de Thomas Nagel

No ensino médio, tal como em outros níveis de ensino, a filosofia exige e promove um treinamento de leitura rico e sofisticado. Por conta disso, e por esta habilidade ser por vezes um gargalo na formação de muitos estudantes, busquei em vários momentos incorporar atividades de leitura na sala de aula. Alguns trechos do livro de Nagel se mostraram bastante frutíferos para essas atividades. Algumas virtudes de seu livro incluem a linguagem acessível, a apresentação da filosofia a partir de perguntas ou problemas instigantes e o tamanho acessível (de parte) dos capítulos.

Meu livro foi certamente influenciado pela abordagem de Nagel, buscando superar alguns pontos que considero limitações no contexto do ensino médio. Em primeiro lugar, nem todos os capítulos têm um tamanho adequado para uma atividade de leitura em um ou dois períodos de 50 minutos. Vejo este tamanho ideal em torno da marca das mil palavras. Em segundo lugar, o livro não traz referências à história da filosofia nem introduz ferramentas argumentativas que fazem parte da investigação filosófica e que poderiam estimular a autonomia intelectual dos estudantes. Por fim, alguns temas aparecem de maneira um tanto condensada—o que não é um defeito por si só, mas não é o ideal para atividades especificamente focadas na leitura.

Dito isto, a filosofia tende a estimular um tipo de peculiar de leitura, algo que não se confunde com ler literatura, por exemplo, ou outros gêneros textuais. Em minha experiência com estudantes e iniciantes, a leitura filosófica exige, em algum momento, pausas para refletir e discutir, uma leitura em que alguns parágrafos podem tomar uma dezena de minutos ou mais, exigir anotações e questionamentos, enquanto outros seguem com uma fluidez mais convencional.

Ferramentas filosóficas, argumentação e imaginação

A lógica é comumente ensinada como parte da filosofia. Por vezes há uma expectativa de que também seja um instrumento ou cumpra um papel metodológico na investigação filosófica. Na prática, no entanto, é difícil fazer valer esse papel instrumental. Após aprender a testar a validade de argumentos em um ou outro sistema formal, por exemplo, como aplicar isso para pensar sobre questões filosóficas ou avaliar uma ou outra teoria?

Com esse questionamento de fundo, busquei, no livro, explicitar alguns conceitos e práticas que parecem cumprir um papel metodológico na discussão filosófica. Essas ferramentas estão muitas vezes implícitas nos textos filosóficos e no aprendizado da filosofia em cursos de graduação. No livro, elas foram introduzidas gradualmente e incluem a realização de distinções, os conceitos de condição necesária e suficiente, a prática dos experimentos de pensamento, o uso intenso da imaginação que fazemos com eles, vários exemplos de conflito lógico entre proposições, como a contradição e a contrariedade, entre outras.

Justificação e interdisciplinaridade

Um desafio didático frequente para professores de filosofia é introduzir sua disciplina em meio a outras com as quais os estudantes já estão familiarizados. O livro apresenta a filosofia como uma forma de buscar conhecimento, ao lado de outros empreendimentos, como as ciências empíricas e a matemática. A filosofia se distingue, no entanto, por buscar conhecimentos que são respostas para alguns tipos especiais de perguntas, perguntas que muitas vezes têm a forma “O que é X?” ou “O que torna X valioso?” (ver uma apresentação em vídeo abaixo).

Ao mesmo tempo, a filosofia busca justificar suas respostas de maneiras também peculiares. Essa justificação envolve, entre outros elementos, os experimentos de pensamento, mencionados antes, e não se confunde com a justificação empírica nem com a justificação demonstrativa características das ciências e da matemática.

Essas distinções, no entanto, não excluem a possibildiade de colaboração entre as várias áreas do conhecimento. Assim, o livro também enfatiza que muitos desafios da humanidade—como as mudanças climáticas, dificuldades na segurança e na educação—exigem a contribuição de diferentes áreas do conhecimento para serem adequadamente tratados.

Algumas reações

Em vários momentos desde a escrita do livro, recebi comentários animadores. Várias pessoas consideraram que consegui alcançar uma linguagem clara e acessível. Algumas pessoas destacaram que os exemplos e analogias mantiveram-se em contextos familiares para os estudantes. Outras pessoas notaram que algumas partes não são tão acessíveis quando podem parecer à primeira vista—o que em parte considero inevitável na medida em que se mantenha alguns conteúdos mais complexos, mas que podem ser valiosos para os leitores. Sou grato por esse retorno recebido ao longo do processo, pois ajudou a manter a confiança que em alguns momentos vacilou diante dos desafios envolvidos em dar seguimento e finalizar um projeto dessa natureza.

Recebi também várias outras reações após a publicação oficial do livro. Algumas pessoas deixaram avaliações na Amazon (você também pode deixar uma, mesmo se não tiver comprado o livro lá). Agradeço por essas avaliações, pois, além de terem ajudado a amenizar o frio na barriga pós-publicação, também ajudam a aumentar a visibilidade do livro naquela plataforma, que concentra atualmente grande parte das vendas de livros no Brasil e em outros países.

Enfim, o livro está lançado e os elementos acima são parte do que esteve por traz de seu planejamento e elaboração. Agradeço aos vários colegas e amigos que têm apoiado o projeto e espero que se torne mais uma ferramenta à disposição de professores e estudantes de filosofia.

O livro Por que pensar assim? Uma introdução à filosofia foi publicado pela Pontes Editores (Campinas, SP, 2025). Você pode conferir uma amostra e mais informações.

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2 respostas a “Uma introdução à filosofia para o ensino médio”

  1. Avatar de FABIO FILOSOFO
    FABIO FILOSOFO

    PARABÉNS MEU AMIGO PELA EXCELENTE OBRA E SUCESSO SEMPRE .

    1. Avatar de Marcelo Fischborn

      Obrigado, Fabio. Um abraço!

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